Entrevista ao Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras

Carlos Bernardes

J.A.- Valorize o sector primário e o turismo desse concelho?
P.C.-São denominadores comuns do concelho de Torres Vedras. O setor primário continua a ser de extrema importância, num território que é caracterizado pela ruralidade e que se assume como um dos grandes abastecedores de bens agrícolas. É daqui que saem, diariamente, inúmeros camiões para abastecer o país, mas também vários pontos do globo. Destacamo-nos na produção de fruta e hortícolas, assim como na produção de vinho. Em 2018, fomos mesmo distinguidos como “Cidade Europeia do Vinho”, o que foi determinante para impulsionar, por exemplo, a dinâmica do enoturismo no Concelho. Antes da distinção, contávamos com quatro unidades a operar nesse âmbito. Atualmente, o nosso Guia de Enoturismo é composto por 13 unidades.
E essa é apenas uma das vertentes deste território que, como costumamos dizer, oferece um pouco de tudo. Além da vertente “campo”, temos 20 quilómetros de costa, ideal para quem procura fazer férias em família e em segurança. Temos muito espaço para que quem nos visita possa cumprir as devidas distâncias de segurança e desfrutar de tudo o que a nossa costa tem para oferecer. Por outro lado, temos um vasto património cultural por explorar, onde se destaca o conjunto das Linhas de Torres Vedras e o Castro do Zambujal.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.
P.C.-Infelizmente, a violência doméstica é uma realidade para muitos homens, mulheres e crianças do nosso país. Devido à necessidade de isolamento e de confinamento nas nossas casas, a situação que vivemos deixou as vítimas ainda mais desprotegidas, confrontadas pela presença permanente do agressor. É por isso que considero de extrema importância as medidas adotadas pelo Governo, criando novas formas para pedidos de ajuda (que agora podem ser feitos através de SMS e e-mail), mas também o reforço dos serviços de apoio à vítima e as amplas campanhas de informação e sensibilização. Porque esta é uma realidade a que ninguém pode ficar indiferente.

J.A.- Estando a população cada vez mais envelhecida, e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.C.-A Câmara Municipal de Torres Vedras conta com vários recursos que visam apoiar os seniores do Concelho. A preocupação em torno da população mais vulnerável acentuou-se durante a pandemia, uma vez que era necessário continuar a dar resposta às suas necessidades. É disso exemplo a Linha de Apoio Psicossocial, que entrou em funcionamento a 16 de março e que, até 22 de junho, recebeu 2067 chamadas. Além de prestar apoio psicológico, a linha conta com uma rede de distribuição de bens de primeira necessidade denominada “Ajuda Porta a Porta”. O serviço pretende auxiliar os munícipes que se encontrem em isolamento profilático ou que não tenham suporte familiar, nomeadamente idosos e cidadãos especialmente vulneráveis, como portadores de doença crónica, doença oncológica, com deficiência ou incapacidade.
Naturalmente, as aulas presenciais do “Mexa-se para a Vida”, o nosso programa de desporto sénior, foram suspensas devido à pandemia. Rapidamente decidimos adaptar o projeto ao meio digital para, assim, continuar a promover a melhoria da qualidade de vida dos munícipes seniores através da prática da atividade física. Agora, as atividades decorrem três vezes por semana através dos canais digitais da Câmara Municipal.

J.A.- O que acha das medidas tomadas pela DGS, para contenção do COVID-19?
P.C.-Não tenho dúvidas de que a resposta de Portugal no combate à propagação da COVID-19 tem sido exemplar. O país conta com entidades competentes e responsáveis, que têm feito tudo para controlar a pandemia e evitar situações como as que vimos em Espanha e Itália. E a verdade é que isso foi conseguido, sem nunca se vislumbrar o colapso do Serviço Nacional de Saúde. Acredito que, aqui, os municípios também tiveram um papel fundamental na defesa do seu território e das suas populações. O conhecimento da realidade em que trabalhamos todos os dias de forma tão próxima permitiu-nos, desde cedo, aplicar todas as medidas e orientações indicadas. As autarquias estão ao nível dos desafios mais complexos, mesmo em situações de crise. Creio que se alguém tinha dúvidas sobre a sua competência, essas dúvidas foram dissipadas.

J.A.-Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nesse concelho?
P.C.-Acredito que a mensagem que levo comigo é a mesma que os torrienses transmitem a todos os que os rodeiam. Temos orgulho nas nossas gentes e no nosso território, sabemos que as suas características agradam a quem procura um território onde investir. Afinal, pertencemos ao distrito de Lisboa e à Região Centro, o que permite às empresas que realizem investimentos no concelho beneficiar de fundos europeus com taxas de cofinanciamento até 85%, a que se aliam os nossos programas de apoio e incentivo ao investimento.
Para isso, contamos com a Agência Investir Torres Vedras, o projeto da Câmara Municipal que acompanha todas as formas de investimento no Concelho, sendo responsável pela dinamização do empreendedorismo local e atração de novos investimentos.

J.A.- A câmara municipal tem algum tipo de parcerias e protocolos com instituições de ensino? Em que áreas e como se desenrolam esses protocolos?
P.C.-A educação é um dos eixos centrais da ação da Câmara Municipal de Torres Vedras. Acreditamos que o conhecimento é a alavanca de desenvolvimento da sociedade e, para nós, é prioritário aprofundar relações com instituições de ensino, nas mas variadas áreas. É disso exemplo o memorando de entendimento que assinámos com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, com vista a transformar o antigo Hospital Dr. José Maria Antunes Júnior no Torres Vedras Health Park for Multidisciplinary Care. Pretendemos que este venha a ser um espaço de referência dedicado à prestação de cuidados assistenciais, mas também à formação de profissionais da saúde, ao ensino e à investigação em Medicina e outras Ciências Biomédicas.
Por outro lado, é para nós muito importante a parceria entre o Instituto Politécnico de Leiria (IPL) e o Torres Vedras LabCenter. Este é um equipamento inovador, instalado no centro histórico da Cidade, onde se promove a inovação e o conhecimento. Esta parceria permitiu trazer o ensino superior público para Torres Vedras, através da criação de um Núcleo de Formação do IPL onde se desenvolvem vários cursos TeSP (Técnicos Superiores Profissionais).

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?
P.C.-A Câmara Municipal de Torres Vedras trabalha em estreita colaboração com as 13 juntas de freguesia do nosso Concelho. Acreditamos que os órgãos das autarquias locais têm de trabalhar de forma articulada, para melhor poder responder às necessidades das populações. No ano passado concretizámos a transferência de competências, um processo que acreditamos que permitiu reforçar a autonomia local. E, já este ano, as autarquias estão a ser postas à prova, naquele que é um combate complexo frente a um inimigo invisível. Foi a trabalhar lado a lado com as juntas de freguesia que distribuímos mais de 100 mil máscaras à população de todo o concelho.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população do seu concelho?
P.C.-Neste momento, é importante reforçar a mensagem de que esta batalha ainda não está terminada. Cabe a cada um de nós cumprir o seu papel, mantendo-se a si e aos outros em segurança. E posso assegurar aos torrienses que Torres Vedras é um território seguro para, gradualmente, voltarmos a viver o nosso dia a dia com a “normalidade” possível. É importante que as pessoas sintam confiança nas nossas empresas, no comércio e nos serviços, dando-lhes o impulso de que necessitam neste momento. Foi por isso que criámos o selo “Estabelecimento Seguro”, que atesta o cumprimento das medidas de higienização e segurança no âmbito da COVID-19. Foi mais um passo no sentido de reforçar a confiança da população na retoma da atividade económica do Concelho.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.C.-A vida de autarca tem as suas próprias complexidades, dentro da missão que é procurar responder às necessidades da população. O foco está sempre em aumentar a qualidade de vida no nosso território. E, indiscutivelmente, estar à frente de uma Câmara Municipal como a de Torres Vedras tem os seus desafios. Falamos de um município muito dinâmico, com projetos nas mais variadas áreas: do ambiente à educação, passando pelo desenvolvimento social e a mobilidade, até ao desporto e à cultura. Mas o reconhecimento que temos vindo a colher, a nível nacional e internacional, enche-nos de ânimo e faz-nos perceber que estamos no caminho certo.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.C.-É fundamental que as populações estejam informadas sobre o que se passa no seu concelho, na sua região e, claro, no seu país. É aqui que o Jornal das Autarquias desempenha o seu importante papel de mostrar a realidade que se vive nos vários pontos do país. Desejo, por isso, que continue a aprofundar este trabalho de proximidade com as autarquias, dando a conhecer o trabalho que é desenvolvido com muito empenho por quem está no terreno, em prol das pessoas e do seu território.

Carlos Bernardes

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