Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Sardoal

Miguel Afonso Catalão Alves

J.A.- Qual a vossa opinião sobre a temática aeroporto/Montijo?
P.J.-Antes do Covid diria que tínhamos que passar das palavras às ações, e muito rapidamente pois sabíamos que o Aeroporto estava a rebentar pelas costuras e obsoleto tendo em conta a quantidade de Aviões que nos chegavam à Portela.

Portugal é o País da criação dos Gabinetes de Estudo, e das reuniões, comissões e outras complicações, e depois passa-se décadas e não se toma decisões, felizmente que este Governo tem mostrado que está no terreno para fazer e tem mostrado aos Portugueses que o caminho que está a traçar é o correcto.
Mas agora coloca-se uma questão e depois do Covid? Estamos todos a aprender diariamente com este vírus, mas tenho para mim que as coisas nunca mais vão ser como eram antes. O Turismo nunca mais vai atingir as proporções que atingiu nos últimos anos, mas quem diz em Lisboa, diz em Barcelona, Veneza, Paris ou Miami. Os operadores Turísticos terão que ser muito imaginativos para conseguirem captar os “Novos Turistas” , desta vez não chega só as nossas bonitas praias, a nossa extraordinária hospitalidade, a qualidade/preço e o sol maravilhoso que podemos oferecer.

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J.-Na Agricultura temos pequenas explorações familiares, embora estando a agricultura biológica em expansão, ainda temos pouca expressão, na pecuária idem, nas pescas não temos atividade e na silvicultura é a área do sector primário onde somos mais fortes e onde temos maior atividade e um maior número de empresário no ramo.
O Sardoal tem fortes tradições no Turismo Religioso, recomendo que quem nunca nos visitou que o faça pois temos um Património cultural e edificado muito bonito, mas onde ganha um maior significado e imponência na semana santa e da Pascoa, onde todas as igrejas e capelas mostram os seus tapetes de flores, para se ter uma ideia num raio de pouco mais de 1 km temos 3 igrejas e 6 capelas, Igreja Matriz, Convento de Sta Maria da Caridade, Igreja da Misericórdia, depois a Capela do Espirito Santo, Nsa Sra do Carmo, Sta Catarina, Sant’Ana, S.Sebastião, Nsa Sra dos Remédios.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.
P.J.-A APAV temo feito um esforço enorme para ajudar as vítimas deste flagelo, a criação do sms anónimo 3060 foi uma excelente ideia, contudo as vitimas continuam a sentir-se desprotegidas. Quando provado as penas deveriam de ser exemplares, de forma a reduzir este flagelo que afecta todos os sectores da sociedade. A mim causa-me um enorme sufoco e aperto no peito saber que alguém próximo pode estar a passar por isso.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento um infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J.-Somos um meio pequeno que todos nos conhecemos, felizmente não temos um número de delinquência infantil ou outra que para já nos faça preocupar.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.-Preocupa-me perderam-se os valores. As redes sociais vieram extrapolar muito a violência verbal e a força das palavras, temos muito lobo vestido com pele de cordeiro que preocupa-se apenas com quem vai atacar hoje.
Vou-lhe dar um exemplo que tem a ver diretamente comigo. Resido no Sardoal há 22 anos, onde construi minha habitação e constitui minha família, passado 19 anos a residir no Sardoal, aceitei o convite que me fizeram de concorrer às eleições Autárquicas de 2017, até esse dia, nunca sofri atos de vandalismo. Desde essa altura e com muita frequência me aparecem danos por exemplo na minha viatura. Já forçaram a fechadura da Junta de Freguesia, nas primeiras semanas que tomámos posse, acederam informaticamente a registos da Freguesia, isso é muito preocupante, isso é um tipo de violência que ninguém estava à espera.
Até 2017, creio que só me tinha aborrecido com uma pessoa e hoje superámos isso como duas pessoas adultas que somos, Depois de ser eleito, já fui ameaçado, já sofri tentativas de agressão, e isto porque sou retilíneo e porque fique muito bem claro não tenho receio. Baterei de frente seja contra quem for, denunciarei e agirei sempre está-me na génese, não podem existir pessoas mal formadas que se julgam acima da lei .
Não podem existir pessoas que o seu percurso de vida e profissional esteja constantemente manchado e nada se passa porque os responsáveis que podem fazer algo não o fazem e “aparam-lhes os golpes”, isso não pode suceder. A justiça foi feita para ser aplicada, e depois na tentativa vã de denegrir a imagem de quem for, inventam histórias, enviam cartas anónimas.
Já coloquei processos em Tribunal e o com repercussões sobejamente conhecidas, e continuarei sempre a fazer quando necessário a população já entendeu o Presidente de Junta que têm a liderar a sua Freguesia.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J.-No presente construímos a nossa Caixa Solidária que está no Jardim da Junta de Freguesia, em que sem perguntas ou constrangimentos a população que necessita levanta os seus bens, tem sido um projecto muito enriquecedor. Também lançámos o Programa Fique em Casa, onde levamos os Bens Essenciais, Medicamentos e Ração para animais comprados exclusivamente no Comércio Local a casa dos nossos residentes. Lançámos também já algum tempo o programa Oficina do Reformado onde efetuamos pequenas reparações gratuitas ao domicilio.

J.A.- O que acha das medidas tomadas pela DGS, para contenção do COVID-19?
P.J.-A DGS tem feito um trabalho extraordinário estamos todos a aprender com este vírus, creio que existem é demasiados “especialistas” a alvitrar, eu fui Gerente Bancário durante 21 anos, e se me viessem dizer como deveria fazer na concessão de um credito ou como deveria analisar uma proposta garantidamente não tinha a paciência que a Dra Marta Temido e a Dra Graça Freitas têm demonstrado, temos jornais e jornalistas a fazer um péssimo serviço publico, mas felizmente que também há exceções.

J.A.- Com a aproximação do Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transactos?
P.J.-Penso que a sua pergunta se refere aos incêndios, temos Bombeiros Municipais, O Município de Sardoal despende do seu Orçamento meio milhão de euros para a Proteção Civil, temos um corpo de bombeiros competentes, temos um Presidente da Proteção Civil Distrital que também é Presidente de Câmara, vamos deixar para quem sabe e para quem tem estado por dentro dos dossiers, a mim o que me preocupa é não se atuar por escassez de meios humanos ou de recursos financeiros, esta pandemia tem muitos bombeiros alocados a essa tarefa, hoje já se fala em bombeiros estagiários na linha da frente, é um assunto que me preocupa sobre maneira, esperar que responsáveis Autarquicos não tenham que colocar o estado em Tribunal pelo não cumprimento das suas obrigações é assunto que também me preocupa. Quero menos reportagens na televisão e mais ação se possível assentes em pés de cimento.
A Junta de Freguesia contribuiu no levantamento por toda a Freguesia das pessoas que estão acamadas e com mobilidade reduzida, tivemos uma estagiária durante um determinado período que a aloquei a efectuar esse trabalho muito meritório no âmbito do programa aldeia segura, não mencionámos nomes de Oficiais de Segurança exatamente por essa razão, deixar para quem sabe identificar melhor quem pode desempenhar essas funções, e estão pessoas muito bem pagas e a tempo inteiro para o fazerem.

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vitimas do mesmo?
P.J.-A Junta de Freguesia não tem recebido apoios do governo, pelas razões acima descritas, as verbas são transferidas para os cofres da Câmara Municipal.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.-O envelhecimento e a desertificação da população, motivada pela falta de emprego, também o comercio e as empresas estão a passar por momentos muito difíceis, uma palavra de apreço e de esperança para eles, confiando num amanhã melhor.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.-Alterar na génese a política concelhia, estamos num mau caminho e a definhar, e não se vê perspetivas de melhorias. O Jazz no Sardoal não vai tornar-se no nosso “canhão da nazaré” como querem fazer crer. Lembro como era por exemplo as Zonas Industriais de Mação e Vila de Rei nos finais dos anos 90 e como se tornaram, os responsáveis do executivo Municipal têm que colocar a mão na consciência e perceber que a sua politica tem sido prejudicial para o desenvolvimento do Concelho, os censos de 2021 vão ser muito preocupantes.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
P.J.-Continuar com o rumo delineado, potenciar as nossas infraestruturas e melhorar a qualidade de vida a todos os nossos residentes. Primeiro as pessoas.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J.-Sardoal é uma localidade muito soalheira, costumo dizer que ou faz sol ou chove, aqui não há meio termo.
Não temos os nevoeiros tradicionais e frequentes de outros locais, somos hospitaleiros, estamos no centro do País com bons acessos rodoviários, e ferrovia, temos uma zona histórica de uma beleza invulgar, os lotes de terreno por não sermos uma cidade, ainda não atingem valores por exemplo de Abrantes, temos que potenciar e melhorar aquilo que é nosso, temos um Centro Cultural fantástico, A zona de lazer da Lapa a necessitar de intervenção mas de extrema beleza, os Moinhos de Entrevinhas que merecem ser visitados, temos um Património Religioso magnifico, uma gastronomia de fazer inveja, temos tudo o que é necessário para que qualquer família se sinta feliz a residir no Sardoal, quanto ao Investimento Empresarial o Município terá que arranjar forma de os atrair, lotes a preço simbólico, redução de IMI, benefícios fiscais entre outros, temos também que criar condições para que as pessoas se fixem e para isso temos que criar emprego e criar alojamento que não existe.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J.-Apesar de termos aumentado a despesa com o pessoal na efetivação de 50% dos funcionários que estiveram anos a fio em regime de precariedade e colocámo-los no quadro, pois achamos que as pessoas têm que ter uma carreira contributiva que lhe dê alguma estabilidade no final de sua vida e isso não sucedia, depois aumentámos também a despesa com o executivo nomeadamente com a minha presença a meio tempo que me disponibilizei para estar ao serviço da junta de freguesia, mas que nos permite atingir patamares de serviço publico nunca antes prestado, foi uma decisão que não me beneficiou financeiramente, pois abdiquei de parte do meu salário na minha empresa para poder estar ao serviço da população, mas só assim sei estar, presente e mais próximo possível e conseguirmos fazer o que temos feito, mas continuamos com uma situação financeira estável, sabendo que o dinheiro não é para estar no banco, o dinheiro é para ser investido. Veja-se por exemplo os fardamentos dos nossos funcionários, como eram e como são.
Neste momento de pandemia temos 30 medidas adotadas para poder apoiar a população, com esta dimensão, e com os nossos recursos financeiros e humanos somos um exemplo neste País.
Investiu-se em equipamentos como nunca, equipamentos de proteção individual e segurança, maquinaria, reparações que estavam por fazer, Dumper e Pick Ups, adquirimos um aspirador urbano e arranjamos uma nova estrutura na carrinha, fizemos um novo arquivo, efetuámos a iluminação noturna para o hastear das bandeiras, construímos um parque fitness que não existia na sede de concelho, compramos mobiliário de jardim,
Construção de corrimãos para as pessoas de mobilidade reduzida, tem-se recuperado fontes e fontanários por toda a freguesia, criamos novos eventos que não existiam, a festa da freguesia nas aldeias, o magusto da freguesia a toda a população, os presépios de rua, o dia da mulher, no aspeto ambiental que nos preocupa muito, adquirimos as beateiras e cinzeiros de bolso, efetuamos a plantação de arvores de fruto em diversos locais da freguesia, flores e outras espécies de vegetação na barreira do ringue, estamos a recuperar e a manter tudo o que é património que nos pertence, o edifício ensaio da musica já foi intervencionado, a sede da junta de freguesia, os moinhos de Entrevinhas, o ringue, o parque fitness, temos 5 imoveis nossos todos eles já sofreram renovações, pinturas, coberturas de telhado, muito investimento temos feito no nosso património e mantivemos atividades que já vinham e bem a serem feitas, com ligeiras modificações, como é o exemplo das 4F de Agosto, Dia dos Moinhos, 25 de Abril, entre outros. Somos uma Junta de Freguesia muito ativa que pretendemos desde o primeiro momento comunicar e escutar a nossa população na melhoria e da sua qualidade de vida e trazer alguma esperança e alegria à nossa população.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J.-A Câmara Municipal protocolou com as juntas de freguesia um acordo de execução para efetuarmos determinadas tarefas, mediante um envelope financeiro, montante esse que diga-se está sempre com muito atraso no recebimento, estamos em Maio e as contas de 2019 ainda não foram saldadas. O Município deveria de dar outra importância às juntas de freguesia, por muito que me custe dizer isso, no caso da Junta de Freguesia de Sardoal e de seu Presidente hoje mais do que nunca sinto-me como um alvo a abater, mas não vou vergar.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.-A ligação que tenho aos meus residentes, eles conhecem-na e podem-na comprovar, é uma ligação de proximidade, de confiança e muito estreita com todos eles. Estarei sempre na defesa intransigente da minha população, o meu principal objetivo um dia quando encerrar este capítulo é eu dizer para mim mesmo: “Valeu a pena” e sair de consciência tranquila que dei o melhor de mim, isso será a minha maior satisfação.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.-Não tem sido fácil, não tem sido nada fácil.
A vida de autarca é de uma exigência sem precedentes, sou-lhe franco, não pensava ser tão difícil e complexa, com demasiados formalismos, com regras estapafúrdias por vezes, com armadilhas que nos criam, sempre à espera onde eu vou errar, ser “governação” na freguesia, como sendo a única cor politica diferente no Concelho tem sido uma tarefa hercúlea de levar de vencida, ninguém imagina o quão difícil é.
Tenho amigos que compõem as listas do partido que tem a maioria na Assembleia Municipal e muitos não acreditam ou imaginam, das frequentes rasteiras que me lançam, muitas delas já as deixei de lhes referir, pois notava que isso nos vinha a afastar, aliás já deixei de me relacionar com uns quantos devido à política, mas não as deixo de as anotar para memórias futuras.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.-Que continuem a fazer o vosso trabalho, que é louvável quem ainda se vai interessando por nós, e saber o que se passa pelas Freguesias por este País fora. Quero referir que esta entrevista teve um custo zero para os cofres da autarquia que lidero pois se assim não fosse não o faria, sou contra quem em troca dos dinheiros públicos se anda a promover com entrevistas e isso sucede muito, inclusive no meu Concelho.

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