Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Salvaterra e Foros

Manuel Joaquim Bolieiro

J.A.- Qual a vossa opinião sobre a temática aeroporto/Montijo?
PJ – É um assunto difícil e delicado. Ninguém sabe ainda bem o que pensar, visto que a opinião pública portuguesa está dividida. Portugal necessita a curto prazo de um segundo aeroporto que permita o crescimento da economia e o fato de já existir uma base aérea em utilização (Base Aérea nº 6), não haveria necessidade de se construir novas infraestruturas em outro local. A solução para o aeroporto do Montijo talvez seja, no momento atual, a que reúne as melhores condições de viabilidade aos vários níveis.

Mas, é necessário avaliar em conjunto o atual funcionamento e impacte do aeroporto Humberto Delgado com a eventual utilização civil da Base Aérea do Montijo, devendo haver uma avaliação de impactes positivos e negativos relativos à transferência/aumento de tráfego associado".

Sabemos que a solução Montijo tem algumas vantagens, tais como:
A construção de um aeroporto na base aérea situada na margem sul do Tejo é uma solução de custo reduzido;
É uma obra de construção e de execução rápida;
O aeroporto do Montijo tem boas acessibilidades a Lisboa, nomeadamente através da Ponte Vasco da Gama e do rio Tejo.
Por um lado é uma mais-valia, porque vai investir em muitos postos de trabalho e nós estamos a passar por uma crise muito complicada. As desvantagens são ao nível de barulho e desconforto.
E o Montijo sendo uma reserva natural que alberga 200 mil aves e está na rota de migração de mais 100 mil, este é um aeroporto que se vai estender pelo estuário do Tejo, por isso, há risco de colisão de aves com os aviões, este fator ambiental é um dos pontos negativos, e desse ponto de vista a solução mais prejudicial. Nesta área, está a existência de um corredor utilizado por aves migratórias que acarreta riscos ambientais mas, também, de operacionais — pondo em risco a segurança das aeronaves.

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
PJ – Na nossa freguesia o setor agrícola representa é a atividade principal como fonte de receita para muitas famílias que ao longo de gerações subsistem economicamente da terra. No turismo, não sendo esta a principal fonte do desenvolvimento da freguesia, é um dos fatores de desenvolvimento do concelho de Salvaterra de Magos, que ganhou maior importância a 1 de Dezembro de 2016, quando a arte da Falcoaria em Portugal foi declarada Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

J.A - O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.

PJ - A violência doméstica constitui, de fato, um fenómeno de longa data. As nossas sociedades estão repletas de inarráveis crueldades cometidas contra as crianças, as mulheres e outros membros da família. Geralmente a violência doméstica ocorre apenas em famílias ditas anómalas ou das classes com fracos recursos socioeconómicos; que é praticada por indivíduos com perturbações psíquicas ou com problemas aditivos. Em uma sociedade civilizada e democrática é intolerável a violência doméstica. O Governo, já  aprovou um conjunto de medidas que visam reforçar as respostas para prevenir e combater a violência contra as mulheres e a violência doméstica.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento um infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
PJ - Os comportamentos delinquentes iniciam-se na primeira infância e vão se agravando com o passar dos anos, associando-se a outros comportamentos anti-sociais mais graves, podendo assumir padrões criminosos na fase adulta. São muitos os fatores que contribuem para a determinação e manutenção dos comportamentos desviantes. Entre eles, práticas parentais ineficazes, ausência de atenção dos pais, maus tratos, abusos físicos ou emocionais e exposição a ambiente social violento. A família e a escola estão no centro da problemática em torno desta delinquência. Esta centralidade da família e da escola nasce da nossa convicção de que a delinquência é produto da incapacidade dessas duas estruturas de socialização. Nas escolas, temos cada vez mais notícias de professores vítimas da violência por parte de crianças. A escola deve desempenhar um papel importante, não só na formação cultural dos alunos, como também na formação do seu comportamento moral e social, pois o envolvimento da criança e do adolescente em atividades saudáveis e que explorem suas habilidades cria condições para o fortalecimento de sua autoestima, autoconfiança, autocontrole e vínculo com o próximo. Às vezes, mais que punir o que é errado, é preciso valorizar o certo, para que as crianças desenvolvam e aperfeiçoem condutas de civilidade.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
PJ - A violência gratuita parece ser uma daquelas ofertas que constantemente aparecem na internet e que se podem ganhar facilmente, bastando para isso clicar no botão. A violência está a atingir índices inaceitáveis e a grande dificuldade em se pôr um fim a esse mal. Na base desta violência estão sempre os mesmos problemas, socioeconómicos e familiares. Será um problema que só o alterar das leis penais poderá ajudar a resolver.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
PJ - Estamos muito atentos a esta grande realidade, que nos preocupa bastante, sobretudo nos casos em que sejam mais evidentes situações de pobreza e solidão. A Junta de Freguesia trabalha em rede com a Rede Social que está instalada no Concelho de Salvaterra de Magos, onde procuramos dar respostas. Também apoiamos os idosos da nossa freguesia em parceria com a câmara municipal na organização de momentos de convívio, viagens de âmbito cultural, apoio e encaminhamento para realização de Cartão 65 que tem benefícios e descontos em alguns serviços.

J.A.- O que acha das medidas tomadas pela DGS, para contenção do COVID-19?
PJ – Assim que o vírus foi anunciado pelo governo da China e devido ao influxo de imigrantes vindos desse país, deveriam ter fechado logo as fronteiras e aeroportos para evitar que o vírus entrasse no nosso país, era a melhor medida a ser tomada e não deixar que o vírus entrasse primeiro para depois tomar-se medidas. Acho que as medidas tomadas para a contenção do vírus foram tomadas muito tarde. Já se tinha conhecimento do vírus e da sua capacidade de propagação e o quão perigoso era, e mesmo assim Portugal demorou muito a tomar medidas.

J.A.- Com a aproximação do Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transactos?
PJ – A Junta de Freguesia promove campanhas de sensibilização junto da população e disponibilizamos o máximo de informação possível através de publicações na nossa página do Facebook ou no nosso site, para os cuidados que se deve ter no período verão, e de maior temperatura, para os proprietários procederem à limpeza e desmatação dos terrenos. Promovemos a manutenção de caminhos rurais e terra batida, procedemos à desmatação e limpeza de valas. A União de Freguesias de Salvaterra de Magos e Foros de Salvaterra em ação conjunta com a câmara municipal e a Junta de Freguesia de Marinhais, promovemos uma campanha de sensibilização intitulada “Vamos continuar a limpar a Barragem de Magos”, o objetivo foi tornar o espaço mais limpo e mais agradável, por isso, tem havido o cuidado de manter o local limpo, mas numa atuação que alargou a área de intervenção e que recorreu a equipamentos pesados, conseguimos recolher várias toneladas de lixo que foi sendo acumulado por cidadãos menos cuidadosos, esperando que estas ações contribuam para que todos ajudem a manter este belíssimo património natural que temos que é a Albufeira da Barragem de Magos”.

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vitimas do mesmo?
PJ – A Junta de Freguesia não tem conhecimento de que se tenha situações de vítimas de incêndios, e não havendo situações de flagelo, não houve apoios, por conseguinte não recebeu nada por parte do governo.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
PJ – Um dos maiores problemas é o envelhecimento da população, agregado ao êxodo da população mais jovem, que partem à procura de condições melhores. Outro grande problema é a falta de pessoal para o serviço geral, abrimos concursos, e no entanto acabam por se fechar por falta de candidatos e, a escassez de meios económicos para um desenvolvimento sustentável. A falta de habitação social municipal, e também privada, para arrendamento, tudo isto são situações com que nos debatemos diariamente.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
PJ – A rede viária, continua ser um problema atual, com necessidades de intervenção urgente a todos os níveis. Precisamos de melhor ainda mais a mobilidade nas suas diferentes vertentes, nomeadamente, na construção de passeios com mais espaço e que permitam maior segurança aos peões e adaptar para as pessoas que se deslocam em cadeira de rodas. Outro grande problema com que nos debatemos é a falta de saneamento básico em muitos locais da freguesia e essencialmente a falta de recursos financeiros.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
PJ – Num momento em que a economia mundial se encontra em desaceleração e a atual pandemia veio contribuir para o agravamento das previsões económicos, antevendo-se uma expectável recessão, penso que o futuro não se avizinha nada de risonho. Creio que não podemos desanimar, temos de continuar a trabalhar para criar condições para garantir o melhor para as populações.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
PJ – A beleza existente neste Concelho e a qualidade de vida que os cidadãos aqui usufruem é algo maravilhoso, somos uma freguesia com uma cultura e uma identidade muito próprias, que muito nos orgulham, dispomos de uma grande hospitalidade, de tradições, e de bons costumes, existe segurança, enfim, temos uma excelente localização geográfica e de fácil acessibilidade, pois desfruta de uma posição privilegiada, com a A13, que atualmente, consiste em dois troços separados entre si:
Marateca – Almeirim — troço que estabelece a ligação natural entre o Sul de Portugal (Alentejo e Algarve) e as regiões a norte de Lisboa, interligando a A2 — Autoestrada do Sul e a A6 — Autoestrada do Alentejo, na Marateca, à A1 — Autoestrada do Norte, em Almeirim/Santarém. Estes são alguns aspetos para que se invista na freguesia, precisamos é de investidores que queiram investir aqui.

Sendo a Câmara Municipal, o nosso maior parceiro, tento sempre de alguma forma expor os problemas mais sérios e urgentes a resolver. Tentamos de alguma forma fazer um excelente trabalho para o desenvolvimento da freguesia e sempre em prol do bem-estar da nossa população.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
PJ – A situação da freguesia em termos financeiros é estável, os nossos orçamentos são realistas e com um bom grau de execução. É certo de que não dispomos de grandes verbas para fazermos grandes obras e investimento e o prazo médio de pagamento aos fornecedores é inferior a 30 dias.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
PJ – A Junta de Freguesia recebe apoio da Câmara Municipal através do Protocolo de Delegação de Competências e quando necessitamos de adquirir viaturas ou realizar obras de maior investimento, através de vários protocolos de cooperação temos contado sempre com o apoio incondicional da Câmara Municipal.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
PJ – Entendo que as juntas de freguesia são, atualmente, o impulsor de desenvolvimento do atual modelo político, a força do poder local desempenhando um papel preponderante à população que cada um representa. Quero reafirmar os compromissos que assumi com a população no início do mandato e manifestar a vontade de os cumprir até final mesmo. São muitas as tarefas inerentes ao exercício do cargo de Presidente de Junta de Freguesia, mas tenho trabalhado com total entrega, com muita determinação, e com uma vontade insuperável de servir a população desta freguesia.
Também quero pedir aos cidadãos desta freguesia, que em relação aos resíduos acumulados junto aos contentores em algumas ruas da freguesia, ou na via pública, têm a possibilidade de contatar os serviços da sede e da delegação da junta de freguesia e agendar um dia para a recolha dos mesmos. Ajudem-nos a manter a nossa Freguesia mais limpa e amiga do ambiente, é o apelo desta União de Freguesias.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
PJ – Nem sempre é tarefa fácil, pois esta é uma função que absorve muito de nós a favor do serviço público e da comunidade, trata-se de um equilíbrio difícil de gerir, mas a família entende perfeitamente as funções inerentes de ser Presidente de Junta e as limitações que por vezes existem, mas é na família que encontre todo o apoio e estabilidade para a prossecução das minhas tarefas. Nunca a família fica para segundo plano.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
PJ – O Jornal das Autarquias é fundamental para a divulgação de um trabalho ao qual nem sempre é dado o devido valor, é uma forma de divulgar todo o nosso trabalho em favor da nossa comunidade e de mostrar as dificuldades que os autarcas enfrentam para a concretização de projetos.

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