Novembro 2020 - Nº 157 - I Série - Madeira

Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Machico

Alberto Manuel Nunes de Olim

J.A.- Qual a vossa opinião sobre a temático aeroporto/Montijo?
P.J.- O aeroporto Humberto Delgado está neste momento numa situação de completa saturação. Os madeirenses também sentem isso na pele quando fazem as suas deslocações na capital. Há anos que se ouve falar na construção de um novo aeroporto, inicialmente a Ota era apontada como solução, após estudo efetuados verificaram que não era a melhor opção, passando a ser a construção no Montijo apontada como melhor solução. Até este momento devido a questões políticas e ambientais a obra nem o projeto avançaram. Sou da opinião que este impasse deve ser ultrapassado, pois um novo aeroporto é de extrema importância face à situação vivida no atual aeroporto Humberto Delgado.

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J.- Na nossa freguesia existe algumas atividades ligadas ao setor primário, nomeadamente alguma agricultura de subsistência e a atividade ligada à pesca. Relativamente à primeira, a agricultura existente consiste em grande parte para consumo próprio, não sendo uma agricultura comercial, relativamente à pesca, no passado foi um grande meio de subsistência para a nossa população, nomeadamente na captura do atum e do gaiado, com muitos armadores locais. Atualmente e face à mudança dos tempos, a maioria dos que ainda se dedicam à faina do atum e do gaiado, trabalham com armadores açorianos, verifica-se que os jovens já não estão virados nem para a agricultura nem para a pesca. O nosso turismo é mais virado para a prática de atividades de montanha, visto existir inúmeros trilhos que servem graças às suas paisagens para atrair esse tipo de turismo. Machico já viveu tempos áureos na área turística, aquando a existência do complexo turístico da Matur e o Hotel Atlântis, conhecido inicialmente como Holliday In. Com a ampliação da pista do Aeroporto da Madeira, o complexo acabou por morrer e o hotel por ser demolido. Neste momento estamos a pagar um preço alto, pois não foram criadas grande unidades hoteleiras que viessem a compensar o que foi perdido.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.
P.J.- A violência doméstica é um problema grave que se abate sobre a nossa sociedade, não só na nossa freguesia, mas sim a nível global. Existem diversas causas para que esse flagelo esteja a aumentar nomeadamente o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e substâncias psicotrópicas, o desemprego, a perda de rendimentos e a situação que o mundo está a atravessar, o que faz com que as pessoas não estejam bem consigo próprias e à mínima coisa partem para a agressividade. As medidas tomadas são as mais indicadas quando são colocadas em prática. Entristece-me ver situações em que já existe referenciação dessas situações e não haja qualquer intervenção por parte das autoridades, refiro-me a pessoas que são mortas e que nada foi feito para evitar essa tragédia. Entendo que a sociedade deve ser mais interventiva e quando têm conhecimento dessas situações, devem comunicar às entidades policiais, não é fazendo de conta que nada se sabe que vamos evitar a violência doméstica.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento uma infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J.- Infelizmente a delinquência infantil tem vindo a aumentar ao longo do tempo, vemos que os jovens entram cada vez mais cedo no mundo das drogas, o que irá fazer aumentar o abandono escolar. Nota-se cada vez mais uma falta de responsabilização pelos atos de delinquência que estes jovens praticam, em meu entender há uma total falta de respeito e de princípios que se foram perdendo ao longo dos tempos. Nota-se que o bullyng existe, alias como sempre existiu só que de outra forma, as crianças e os jovens são muitas vezes discriminados por motivos sociais, nomeadamente pela roupa que usam, pelo telemóvel que usam entre outras coisas. Chegamos ao ponto em que muitos pais pensam que a escola é que vai educar os seus filhos, mas não compete às escolas educar, mas sim formar, pois a educação vem de casa.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.- Com o surgimento das redes sociais abriu-se mais um caminho para a violência gratuita, pois toda a gente se acha no direito de atacar e criticar o próximo. Muitas vezes são criados nas redes perfis falsos com esse intuito, geralmente por questões políticas. Em meu entender chegou-se a um ponto em que as pessoas não olham a meios para atingir os seus objetivos, manifestando uma total falta de respeito pelo próximo.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J.- É uma realidade preocupante, e existem várias situações. Os idosos abandonados nos hospitais e lares, que muitas vezes têm alta hospitalar e a família nem se digna a ir buscá-los. Existem sociedades, em que os mais velhos são admirados e cuidados, são tidos sempre em conta devido à experiência que adquiriram ao longo das suas vidas. Infelizmente as sociedades ocidentais, não têm muito isso em conta o que é errado, desvalorizam muito aqueles que não tiveram uma vida fácil como a que encontramos nos tempos atuais. Aqui na freguesia temos a Universidade Sénior de Machico, onde promovemos aos séniores a aquisição de novos conhecimentos, a sua estimulação cognitiva assim como o convívio, são os principais motivos e objetivos da Universidades Sénior. Como forma também de combater o isolamento, pois muitas vezes a única companhia que têm são o rádio e a TV. Face à pandemia e por ser um grupo considerado de risco, as atividades da universidade Sénior foram suspensas em março, mesmo antes de ter sido decretado o estado de emergência. As aulas foram retomadas a partir do início de outubro, sendo que houve todos o cuidado em reduzir o número de aluno por oficina, a utilização de máscara de proteção individual, medição da temperatura e desinfeção dos espaços utilizados.

J.A.- O que acha das medidas tomadas pela DGS, para contenção do COVID-19?
P.J.- As medidas tomadas pela DGS e no nosso caos pelo IA Saúde, foram em meu entender as mais apropriadas, o número de infeções tem vindo a aumentar em grande parte pela falta de cuidado que se verifica pela população, em que muitas vezes desvalorizam o vírus, não tendo os devidos cuidados a ter com o distanciamento social. Infelizmente a nossa economia não aguenta mais um confinamento, pelo que cabe a cada um de nós ser-mos responsáveis,

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vítimas do mesmo?
P.J.- A Junta de freguesia de Machico não recebeu qualquer tipo de apoio do Governo Regional da Madeira para colmatar esse flagelo, decidiram sim reencaminhar esses apoios para as casas do povo, discriminando as freguesias. Temos apoiado através de diversas ações as vítimas, reencaminhando inclusive para as entidades que têm essa competência e essa capacidade.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.- Em meu entender o maior problema que a nossa freguesia a exemplo de outras atravessa é o desemprego. A Junta através do Polo de emprego existente numa parceria com o Instituto de Emprego da RAM, tem apoiado os desempregados e as pessoas que foram vítimas de despedimento, layoff e perda de rendimentos, através da ajuda no preenchimento e entrega de documentação existente para esse efeito.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.- A falta de investimento hoteleiro na nossa freguesia é uma preocupação para mim, temos todas as condições para que esse tipo de investimento seja feito, inclusive no apoio que o Município dá a quem quiser fazer esse tipo de investimento. Tenho a noção que em tempos normais, seria uma mais valia para a nossa economia local, través da criação de mais postos de trabalho e havendo uma maior afluência de turistas ao comércio local.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
P.J.- Espero que esta pandemia passe o mais rápido, para que a nossa vida volte à normalidade, que tenhamos o enorme número de turistas que normalmente visitam a nossa região e que são grande parte do sustento da nossa economia.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J.- A mensagem que levo é que a nossa freguesia tem todas as condições para que as pessoas invistam nela.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J.- A situação financeira da freguesia é saudável, claro que como qualquer autarca queremos sempre mais verbas para podermos investir e apoiar a nossa população.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J.- Temos um excelente relacionamento com a Câmara municipal, temos apoio logístico, na cedência do espaço onde está instalada a Junta, assim como os apoios financeiros através do protocolo de apoio para atividades culturais e o contrato interadministrativo de delegação de competências.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.- Que estamos a passar por uma situação muito má nas nossas vidas, mas temos que ter fé e esperança que a pandemia irá passar. Uma palavra solidaria para todas as pessoas que perderam o seu posto de trabalho, para os empresários que estão a passar por dificuldades.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.- Temos que conciliar a vida profissional coma vida familiar, tento sempre ser um pai presente e os meus filhos entendem que nem sempre consigo.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.- Dar os parabéns e agradecer a oportunidade de dar-mos a nossa opinião através desta entrevista.

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