Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Santo António

Vasco André Lopes Alves Veiga Morgado Júnior

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J- Na Freguesia de Santo António temos sempre em atenção todos os elementos da freguesia, sejam eles fregueses, visitantes ou comerciantes. No fundo, fazemos por garantir que a nossa comunidade tem o que precisa.
Uma vez que nos encontramos numa das zonas mais turísticas da cidade de Lisboa, não podíamos deixar de valorizar esta área. No entanto, e como em tudo o que fazemos, tentamos criar uma relação estreita com todos os comerciantes da nossa freguesia, sejam restaurantes ou hotéis – aliás, sempre que é necessário, muitos chegam-se à frente e doam produtos alimentares excedentes e bens essenciais para ajudar os fregueses com mais necessidades.
Mais importante do que valorizar o turismo, valorizamos o espírito de bairro da Freguesia de Santo António em todas as suas facetas.

J.A – O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.
P.J- Encaramos a questão da violência doméstica com bastante seriedade na Freguesia de Santo António, razão pela qual criámos o Espaço JÚLIA – RIAV (Resposta Integrada de Apoio à Vítima).
Este espaço, que foi o primeiro no nosso país, oferece um atendimento especializado e integrado, feito por técnicos de apoio à vítima da Freguesia de Santo António, em conjunto com agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) e cuidados médicos do centro hospitalar Lisboa Central. Esta colaboração tripartida tem como objetivo intervir diretamente nas denúncias de violência doméstica de modo a poder fornecer respostas imediatas e soluções às pessoas que lá se dirigem. Para além disso, este espaço promove atividades de caráter preventivo, informativo e de sensibilização na comunidade local.
O Espaço JÚLIA funciona 365 dias por ano, 24 horas por dia, em instalações junto à entrada do Hospital Santo António dos Capuchos. Este espaço dedicado tem dois gabinetes, uma área dedicada às crianças e acesso a pessoas com mobilidade reduzida.
O nome deste equipamento é uma homenagem a D. Júlia, uma idosa que vivia nesta mesma rua e que, a 25 de setembro de 2011, aos 77 anos, foi assassinada num ato de violência doméstica pelo marido, com quem estava casada há mais de 30 anos.
Como costumo dizer, este espaço é, infelizmente, uma necessidade dos nossos tempos e nada me dará mais felicidade do que, um dia, poder lá ir e fechar a porta definitivamente e encerrar o projeto, sinal que o flagelo da violência doméstica estaria resolvido e acabado.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar é neste momento uma infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J- Felizmente, não sentimos muito esse fenómeno na Freguesia de Santo António. No entanto, achamos que a prevenção e a educação serão sempre o caminho, razão pela qual criámos o Projeto Bússola, um espaço de prevenção de comportamentos de risco.
Criado em novembro de 2016, o Projeto Bússola dá apoio nas vertentes educativa, cultural, desportiva e de tempos livres aos jovens do 5.º ao 9.º ano. Mais do que o apoio ao estudo e trabalhos de casa, este é um espaço polivalente que proporciona momentos de lazer, ao mesmo tempo que incute a importância do civismo e promove a criatividade nos jovens. Este projeto serve também para o desenvolvimento de ideias “fora da caixa”, coisas que prendem a atenção da comunidade, do qual são exemplo o Cinema de Palmo e Meio – um workshop onde a juventude pode experienciar o trabalho de realizador de cinema – e o Notícias Bússola – um noticiário mensal em vídeo, tipo telejornal, sobre os principais eventos da freguesia, executado por jovens.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J- Na Freguesia de Santo António sempre apostámos em apoios de cariz social, que foram reforçados, ajustados e reinventados face às necessidades causadas pela pandemia por COVID-19. Nesse sentido, prestamos apoio através das seguintes iniciativas:

1. “Não saia de casa, nós fazemos as compras por si”

Atendendo às exigências da pandemia foi criado o projeto “Não saia de casa, nós fazemos as compras por si”. Este assegura as necessidades de cada freguês, levando a casa de cada um os bens solicitados – sejam alimentos, medicação ou até a revista ou jornal que costumavam adquirir diariamente, sem terem de sair de casa.

2. Projeto Vassouras & Companhia

Os apoios prestados através do Projeto Vassouras & Companhia, agora com exigências e regras mais apertadas, também estão ao dispor daqueles que necessitam. Aqui são prestados cuidados a pessoas com mais de 65 anos ao nível da higiene pessoal e habitacional e supervisão na administração da medicação.

3. Apoio Alimentar

Todos os pedidos de apoio alimentar são analisados pelo gabinete de Ação Social da Freguesia e encaminhados para as várias respostas de apoio alimentar, nomeadamente:

3.1- As refeições confecionadas no Centro Social Laura Alves;
3.2- As refeições confecionadas e disponibilizadas através do protocolo de 3.3- Apoio Alimentar estabelecido com a Câmara Municipal de Lisboa;
3.4-A Mercearia Social Valor Humano e o Banco Alimentar, que disponibilizam produtos alimentares para a confeção das refeições.

Muitas destas refeições são entregues diretamente na casa dos fregueses que, por motivos de saúde ou idade, não podem sair, principalmente na fase de confinamento obrigatório. Este apoio mantém-se ativo desde o início da pandemia e a sua importância vai para além da simples entrega da refeição – constitui um momento privilegiado de ligação e atenção ao freguês, perceber se está tudo bem e manter o contacto entre a pessoa em confinamento e o exterior, garantindo todas as normas de segurança e proteção.

4. Apoio social face ao desemprego ou perda de rendimentos

Os apoios disponibilizados pelo Fundo de Emergência Social (FES), bem como os apoios inerentes ao Fundo Social da Freguesia (FSF), têm sido o garante de muitas famílias para continuarem a assegurar pagamentos como a renda da casa, eletricidade, água e gás. Ao nível da saúde, a perda de rendimentos deixa pouca margem para garantir a aquisição de medicação, um apoio que também é disponibilizado através do FES e do FSF.

5. Transportes

Os transportes para consultas e fisioterapia também continuam assegurados. Para manter este apoio aumentámos o número de transportes, assegurando a redução do número de pessoas por carro. Para além disso, também temos facultado o transporte de pessoas para o campus de vacinação da nossa freguesia na Rua da Escola Politécnica, quando este nos é solicitado. As viaturas são higienizadas e desinfetadas após cada utilização.

6. Projeto Farol – Saúde Mental

Readaptámos o Projeto Farol, que garantia o acompanhamento psicológico de crianças e jovens com necessidades educativas especiais, e alargámos o seu âmbito de ação à saúde mental para os residentes da Freguesia de Santo António, independentemente da idade.
A sinalização dos casos é feita pelos vários projetos de Ação Social da freguesia, que conhecem a população e mantém um contacto diário com a mesma. Posteriormente, o gabinete de apoio psicológico, que conta com duas psicólogas e uma enfermeira, faz uma primeira avaliação gratuita. Consoante esta primeira avaliação os fregueses são encaminhados para entidades parceiras, sendo que o pagamento das consultas é ajustado de acordo com a situação económica dos fregueses.

7. Mercearia Social VALOR Humano

A Mercearia Social VALOR Humano nasceu a 14 de abril de 2016 e, desde então, o seu objetivo passou sempre por dignificar o apoio social. A ideia passa por ir além da oferta habitual de bens essenciais, dando a oportunidade aos fregueses de Santo António de escolherem exatamente o que precisam, como se fizessem compras num qualquer supermercado, e assim manterem a sua capacidade de gestão e de escolha.

No entanto, esta mercearia tem uma peculiaridade: aqui não se paga com euros, mas sim com “notas de Santo António”, uma moeda virtual criada especificamente para esta mercearia e que é atribuída aos fregueses de acordo com o seu agregado familiar e condições de vida.
A aquisição dos bens é efetuada na Calçada do Moinho de Vento, n.º 3, 1169-114 Lisboa. No entanto, com a pandemia por COVID-19, as aquisições passaram a ser feitas por marcação prévia e por entregas ao domicílio, asseguradas por colaboradores da freguesia que não só conhecem bem as ruas do bairro, como também os seus moradores.
Por vezes, e tendo em conta as necessidades referidas pelos fregueses sinalizados, são distribuídos bens específicos, como foi o caso da entrega de cerca de 200 edredões a 10 de fevereiro. Tendo em conta que nem todos têm capacidades económicas para garantir aquecimento em casa, e dada a necessidade de confinamento devido à pandemia por Covid-19, alguns fregueses manifestaram a falta de agasalhos, que fizemos por suprimir com esta entrega.

8. Apoio aos fregueses que se encontram em isolamento profilático e/ou com diagnóstico de infeção por COVID-19

Todos os fregueses que se encontram nesta situação, que solicitam apoio, ou cuja sinalização para apoio ocorre através da Proteção Civil, contam com o nosso apoio. Podemos destacar a necessidade de entrega de refeições já confecionadas, de bens alimentares para confecionar, de medicação e de apoio na recolha do lixo doméstico.

9. Reforço dos contactos telefónicos

Desde o início da pandemia que se mantiveram contactos telefónicos regulares com os fregueses com mais de 65 anos. Conversar, ouvir e fazer companhia tem sido um apoio fundamental para os que se encontram mais sozinhos. A distância física continua a estar garantida, mas a proximidade social e dos afetos, apesar de readaptada, está sempre presente nesta ligação com os fregueses.

J.A. – O que acha das novas medidas tomadas pelo Governo para a contenção do COVID-19?
P.J- Neste momento considero que são algo insuficientes e desfasadas no tempo. Parece que estamos sempre a correr atrás do prejuízo em vez de o tentar evitar. Creio também que deveríamos esperar mais 15 dias para dar início à terceira fase de desconfinamento – aliás, tal como dito pelo Governo, se o índice fosse superior a 1, não avançava.

J.A. – Qual a sua opinião sobre o modo como está a decorrer a vacinação Covid-19?
P.J- Desde que temos um militar à frente, muito melhor. Mas ainda longe da perfeição.
O vice-almirante Gouveia e Melo trouxe à operação o planeamento necessário e controle da operacionalização, como se fosse um cenário de operações de guerra – que, aliás, o é.

J.A. – Devido à pandemia que se instalou no Mundo, originando falta de recursos na população, a todos os níveis, relate a situação na sua zona.
P.J- A falta de poder económico já se começa a sentir. Acabando as moratórias, não auguro nada de bom. Também o comércio, que muito dele não voltará a abrir, é motivo de grande preocupação. É que por detrás dos números e estatísticas estão pessoas e famílias em aperto.

J.A. – Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vítimas do mesmo?
P.J- A preocupação e olhar atento que mantemos em permanência sobre a Freguesia de Santo António permite-nos atuar quase de imediato nas necessidades mais prementes. Uma das nossas primeiras preocupações aquando a necessidade de quarentena foi garantir que ninguém ficava sem uma refeição. Graças ao trabalho inesgotável da equipa que tenho comigo, mas também do contributo dos nossos comerciantes, restaurantes e hotéis da zona, foi possível confecionar centenas de refeições por dia. A Mercearia Social VALOR Humano, que criámos em 2016, também tem garantido que não faltam os bens essenciais na casa dos nossos fregueses e, felizmente, temos tido diversos apoios e contribuições de mecenas – onde ressalvo, e mais uma vez agradeço, o caso do Intermarché, que doou mais de 32 mil euros em bens alimentares e de higiene – para podermos distribuir por quem mais precisa.
Quanto ao apoio do Governo, ainda estamos à espera da contribuição referente aos gastos com equipamento e apoios à COVID-19 prestados pela Junta. Que se venha a confirmar este apoio e que o mesmo chegue rápido.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J- Fora a pandemia, obviamente, que é um problema global, a Freguesia de Santo António sofre com o êxodo de pessoas para zonas periféricas em detrimento do centro da cidade. Isto deve-se essencialmente a políticas erradas de um seguidismo cego à visão e atuação do arquiteto Robert Moses na Nova Iorque dos anos 60, que transformou a cidade numa área classista e socialmente desequilibrada.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J. - Dar qualidade de vida às pessoas que continuam a viver nesta zona da cidade e criar âncoras para que não mudem para outros locais. Há anos que os lisboetas se sentem como danos colaterais na sua cidade, sendo mesmo, em muitos casos, trocados pela mercadoria turística ou pela última tendência da moda urbanística.

J. A. – Que perspetivas tem para o futuro da freguesia?
P.J. - Uma freguesia ainda mais solidária, inclusiva e amiga para os moradores, visitantes e trabalhadores. Sempre com as pessoas, pelas pessoas e nunca contra as pessoas. É isso que nos move, o que me move desde que estou como presidente. E penso que estamos a conseguir, passo a passo.
Quanto ao êxodo, penso que ainda vamos a tempo de alterar a curva que será percebida assim que saírem os resultados dos Censos 2021. Basta ter vontade.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J- Pura, simples e verdadeira: Santo António é o coração da cidade. E como qualquer coração, é dinâmico, vivo e emotivo. Investir nesta área da cidade, quer a nível de grandes marcas, como as que existem na Avenida da Liberdade, quer a nível do pequeno comércio das ruas mais laterais, é garante de estabilidade, cuidado e muita dedicação.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J- Segura, apesar do grande investimento nesta altura de pandemia. No entanto, não teríamos sido capazes de ajudar tanta gente se não fossem os mecenas – particulares e empresas – e parceiros que acolhem e querem fazer parte dos projetos da Freguesia de Santo António.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J- Mais que apoio, a Câmara descentralizou muitas operações e com as respetivas verbas, porque percebeu que as Juntas de Freguesia, fruto da sua proximidade e conhecimento, trabalham mais rápido, e tão bem ou melhor.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J- Que estamos aqui sempre e unicamente por eles, pelas pessoas, e isso é o que nos move. Tal como o lema com que nos candidatámos: “Por Santo António, Pelas Pessoas”.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J- Às vezes é um autêntico livro digno de Kafka (risos). Com três filhos com idades entre os 23 e os oito anos, muitas vezes não é simples. No entanto, dá gosto ver o interesse e orgulho com que a família – a de sangue e a emprestada, que é toda a minha equipa da freguesia – participa e acompanha todo o nosso trabalho. Aliás, só com um grande apoio da família é que conseguimos levar este barco a bom porto, mesmo no meio das tempestades.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J- Agradeço ao Jornal das Autarquias o interesse em divulgar o trabalho que desenvolvemos na Freguesia de Santo António. Parabéns pelo projeto e um forte abraço para todo o Jornal e para os seus leitores. E, passada esta fase da pandemia, fica desde já o convite para um café e mais dois dedos de conversa numa qualquer esplanada da nossa freguesia.

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