Entrevista da Presidente da Junta de Freguesia de Arroios

Margarida Martins

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J. -A Junta de Freguesia de Arroios entende que, do ponto de vista económico, a valorização do comércio local e da cultura são das questões mais prementes da freguesia. Por um lado porque dinamiza, indiretamente, o emprego, o comércio de matérias primas, a fixação de pessoas na Freguesia e por outro porque promove também a produção nacional e, de uma forma geral, os produtos das 92 nacionalidades que habitam Arroios. Pretendemos, assim, promover a excelência do nosso comércio (restaurantes, mercados municipais, livrarias independentes, entre outros) bem como as cooperativas artísticas que a cada dia crescem mais em Arroios e são um veículo de conhecimento, integração e inclusão.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.
P.J. -Naturalmente é um fenómeno que nos preocupa e por esse motivo demos destaque no último número do Jornal de Arroios a esta problemática, entrevistando a APAV que tem a sua sede nacional na nossa Freguesia. Entendemos que a estratégia governamental tem dado passos certos: a alteração penal para crime público, a maior proteção das vítimas, as muitas campanhas de sensibilização, a formação aos agentes de autoridade, entre outras medidas. Contudo, entendemos que continua a faltar mais investimento, nomeadamente em casas abrigo públicas, em habitação, em estruturas de apoio às famílias vítimas de violência (porque todos são afetados e existe um número crescente de violência contra idosos), a nível judicial (com isenção de taxas de justiça e patrocínio judiciário gratuito) e maior articulação entre todas as entidades envolvidas. O próprio poder local, pela sua proximidade às pessoas, pode e deve ser envolvido neste processo, desde que exista transferência de meios financeiros e humanos.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento um infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J. -Não é uma realidade que possamos dizer que se vive de forma acentuada em Arroios. A nossa Freguesia, que nas escolas conta com 22 nacionalidades, é um exemplo único de inclusão e interculturalidade. Acreditamos que temos proporcionado através dos nossos programas – Páscoa em Movimento, Verão em Movimento, Intervir para o Futuro, Cartão + Arroios, Atividades Extracurriculares, Componente de Apoio à Família, Apoio Psicológico – para além da promoção do uso do espaço público com colocação de equipamentos públicos para a prática de desporto, a promoção da arte urbana, uma programação cultural inclusiva e feita em parceria com as associações da Freguesia, formas de vivenciar uma infância e adolescência com direitos, que garanta o desenvolvimento integral das nossas crianças e jovens. Temos um trabalho muito próximo com as escolas e recentemente distribuímos a todos os alunos das escolas de Arroios o livro «Onde foi parar a bola?», um livro produzido por nós que conta a história da igualdade e da importância da não discriminação entre rapazes e raparigas.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J. -A violência tem sido fruto, por um lado, de condições de vida mais duras, das consequências da pandemia, da perda de trabalho e de rendimentos. As pessoas hoje enfrentam condições de vida duríssimas, numa situação com restrições que são muito difíceis de lidar como o isolamento, o trabalho a partir de casa, o medo de contrair a doença. Tudo isto, acompanhado pela explosão das redes sociais, da difusão de desinformação, de grupos perigosos de extrema-direita, potencia situações de xenofobia, racismo, violência. Em Arroios, não há lugar para o racismo ou para a discriminação. Não há lugar para a intolerância ou para a violência. Combatemos estes fenómenos com políticas sociais e culturais. A criação do Núcleo da Biblioteca dos Países Árabes e do Norte de África, na Biblioteca de São Lázaro é um exemplo. Aproximou-nos destas comunidades e estamos a fazer um trabalho muito dinâmico, contando já com centenas de livros oriundos destes países. Acabámos de lançar um livro de receitas com pratos de todas as nacionalidades de Arroios. Reforçámos o nosso apoio social. Em Arroios, todos fazemos parte.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J. -Através do Fundo de Emergência Social apoiamos as famílias no pagamento de rendas de casa, no pagamento de luz, água, passe, na compra de medicação, na aquisição de bens essenciais. Distribuímos semanalmente cabazes alimentares e todos os dias refeições confecionadas. Apoiamos os restaurantes através do programa da Câmara Municipal de Lisboa, financiando os restaurantes que queiram aderir à Refeição Solidária, com a atribuição de financiamento. Temos apoiado e informado os comerciantes sobre os apoios existentes e a forma de se candidatarem aos mesmos, bem como apoiado socialmente centenas de famílias com apoio psicológico gratuito, com os programas falados acima, como o Arroios Solidário (reparações gratuitas em casa), o Casa Aberta (obras gratuitas para garantir a mobilidade e conforto na casa das pessoas), o Cartão + Arroios (que providencia, nomeadamente, descontos nas farmácias), aulas online na Academia Sénior, entre muitos outros programas.

J.A.- O que acha das novas medidas tomadas pela Governo para contenção do COVID-19?
P.J. -Entendemos que até agora as medidas têm sido adequadas, sendo certo que serão necessárias mais para apoiar os trabalhadores no desemprego, trabalhadores independentes, micro, pequenos e médios empresários e as autarquias que têm estado na linha da frente.

J.A.- Qual a sua opinião sobre o modo como está a decorrer a vacinação Covid-19?
P.J. -Não obstante entendermos que a vacinação deveria ser em massa, pensamos que, e uma vez que a Freguesia de Arroios tem participado com dezenas de trabalhadores todos os dias da semana, a vacinação está a correr melhor, a um ritmo mais acelerado, mas ainda assim faltam recursos humanos e vacinas. Esperemos que rapidamente seja resolvida esta situação, mas os passos tomados têm sido sempre no sentido da melhoria do processo.

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vitimas do mesmo?
P.J. -Do governo central não recebemos qualquer apoio mas sim apoios financeiros da Câmara Municipal de Lisboa. Da nossa parte criámos um alojamento para pessoas infetadas mas assintomáticas sem condições para fazer o isolamento, recebemos várias pessoas de fora da Freguesia. Conseguimos apoiar mais de 230 requerentes de asilo que encontrámos em situações de fome, sem medicação, em pensões sobrelotadas, sem informação, sem equipamentos de proteção individual. Distribuímos cabazes alimentares e refeições quentes a mais de 500 famílias. Apoiamos centenas de pessoas com o programa Não Saia de Casa, em que fomos às compras e à farmácia. Prosseguimos sempre o programa Arroios Consigo, transportando pessoas com mobilidade reduzida e com mais de 60 anos às consultas e à vacinação. Damos o apoio ao programa de vacinação em curso na cidade de Lisboa, sendo que já tínhamos disponibilizado as instalações e pessoal para a vacinação da gripe e para a vacinação exclusivamente destinada a grupos de risco. Prosseguimos o programa Zero Desperdício com distribuição de refeições. Realizámos o programa no Verão Arroios em Movimento para as crianças, permitindo que tivessem um pouco de normalidade nas suas vidas. Desenvolvemos programas de ginástica para séniores ao ar livre e online, para motivar as pessoas mais idosas e temos apoio psicológico gratuito para todos os fregueses. Distribuímos gratuitamente máscaras, certificadas, no primeiro confinamento e agora tendo alargado a oferta às crianças da freguesia. Desenvolvemos programas culturais online para crianças, como a hora do conto, para estar presentes junto das famílias. Adaptámos todo o funcionamento de participação cívica e da população também num grande esforço com os poucos meios que temos, para que ninguém seja excluído por não ter acesso a meios informáticos.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J. -Neste momento com a inexistência de uma estratégia integrada e inclusiva, há muito por nós solicitada, para as pessoas em situação de sem abrigo e com níveis de rendas habitacionais muito elevados, por isso exigimos sempre habitação a custos controlados na Freguesia.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J. -Falta de segurança com a decisão de encerramento de esquadras e falta de equipamentos sociais de apoio à 3ª idade e infância. Também nesse aspeto já pedimos à Câmara Municipal de Lisboa que o antigo Hospital Miguel Bombarda seja requalificado e utilizado para esse fim e tivemos uma resposta positiva. Continuaremos a insistir. É necessário ainda (e urgente) que sejam concluídas as obras do metro na linha verde, nomeadamente na estação de Arroios, e que seja implementada uma carreira de bairro na Freguesia.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
P.J. -Sou uma pessoa muito otimista e por isso acho que vamos sair desta situação mais solidários, mais humanistas e mais fortes. E não posso falar de projetos futuros senão acusam-me de estar a fazer campanha eleitoral!

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J. -Exigimos uma estratégia integrada e inclusiva para as pessoas em situação de sem abrigo, habitação a custos controlados, mais espaços culturais para as associações, a reabertura de esquadras, equipamentos sociais de apoio à 3ª idade e infância. Arroios é uma Freguesia ímpar, com mais de 90 nacionalidades, uma freguesia jovem, a pulsar de criatividade, cultura, projetos, com jardins magníficos que acabaram de ser reabilitados por nós com recuperação da calçada portuguesa, servida de transportes, com todo o mundo aqui. Investir em Arroios é investir numa freguesia que promove a igualdade, a não discriminação, a interculturalidade, o progresso social e humanista.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J. -Neste momento todo o investimento está canalizado para o apoio social e para a garantia da contratação de trabalhadores sem recurso à precariedade. Podemos dizer que são as duas prioridades centrais e que fomos a primeira Junta em Lisboa a iniciar e terminar o processo de integração dos vínculos precários, seguido imediatamente de um concurso para a contratação de 55 novos trabalhadores. O investimento em obras públicas é feito via delegação de competências da CML e ascende aos 3 milhões de euros e somos das poucas freguesias com a execução contratual em dia.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J. -A Câmara tem prestado muito apoio às Juntas, tem cumprido sempre as suas obrigações de transferências financeiras, nas piores alturas da pandemia a Proteção Civil foi inexcedível. Claro que às vezes podiam ser mais céleres nas respostas mas entendemos que os tempos de uma Freguesia são diferentes dos tempos de todo um Município, mas devo dizer que, particularmente com os serviços, a relação da Junta de Freguesia de Arroios é excelente. Pedimos apoio, colaboram sempre. É um Município com o qual contamos e que conta connosco.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J. -Que podem contar sempre connosco, estamos presentes, ouvimos, respondemos, atuamos, conhecemos. Temos uma equipa jovem, dinâmica que sabe o que é o serviço público e todos os dias trabalhamos para melhorar. E contamos com todos.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J. -A minha vida é Arroios.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J. -O poder local democrático foi uma conquista emblemática do 25 de Abril. É necessário que todos reconheçam a sua importância e o valorizem porque são as autarquias e os seus trabalhadores que estão sempre lá. Que não param. Faça chuva ou faça sol. E por isso é preciso dignificar os salários e as carreiras dos trabalhadores, respeitar os Executivos, participar nas Assembleias, propor, com respeito por todos os que dedicamos a vida à causa pública.
Porque é pelas pessoas que estamos aqui. Pelo serviço público. E estes foram anos difíceis em que o país contou e sobreviveu, também, porque temos o poder local democrático.

Go top