Entrevista ao presidente da Câmara Municipal de Porto de Mós

Jorge Vala

J.A.- Que opinião tem sobre a temática aeroporto/Montijo?
P.C.- Esse é um assunto que interpela mais à região metropolitana de Lisboa. O interesse de Porto de Mós, nesta matéria, está centrado na construção de um aeroporto em Monte Real. O território e a centralidade da região onde nos encontramos justificam que Monte Real adquira a valência também de aeroporto civil e não apenas de base militar, independentemente de haver ou não um aeroporto no Montijo. Tendo em conta os fluxos de turismo religioso — nomeadamente Fátima com os milhões de peregrinos que habitualmente vêm a esta região —, o aumento do fluxo de turistas que visitam Coimbra e Aveiro, assim como a herança natural e o património mundial classificado pela UNESCO, — onde destaco o Convento de Cristo em Tomar, o Mosteiro da Batalha e o Mosteiro de Alcobaça —, é evidente que a existência de um aeroporto regional em Monte Real iria afirmar e desenvolver o grande potencial turístico da região centro. A abertura ao tráfego civil da base militar de Monte Real iria também fomentar as dinâmicas empresariais de Leiria e Aveiro, dois distritos com forte tecido empresarial onde as tecnologias de ponta aproximam esta região do mundo numa lógica de comércio global. Temos um aeroporto na cidade do Porto, outro em Lisboa, mas o centro do país não está servido. Também é sabido que não temos uma boa rede ferroviária o que justifica ainda mais a necessidade de um aeroporto.

J.A.- Como caracteriza o sector primário e o turismo no concelho de Porto de Mós?
P.C.- O nosso concelho tem duas vertentes muito importantes nessas áreas. Uma delas é a indústria extrativa com a exploração do barro e da pedra. A outra grande área é a agricultura. Saliento que parte do território da freguesia do Juncal está integrada na zona classificada da Maçã de Alcobaça onde os pomares continuam a ser produtivos. No setor primário estas são as duas áreas que valorizamos até porque são importantes sob o ponto de vista económico. Já o turismo, é, neste momento, uma das grandes apostas para o desenvolvimento económico deste concelho. Estamos a potenciar o ecoturismo através do turismo ativo, investindo significativamente na área dos percursos pedonais, cicláveis e equestres. Estamos a qualificar cerca de 700 km de percurso, a reabilitar o antigo Centro de Atividades ao Ar Livre em Alvados transformando-o num centro de interpretação de Maciço Calcário da Serra de Aire e Candeeiros. Temos também em mente melhorar as condições de fruição da icónica Fórnea, e projetada a valorização paisagística das nascentes do rio Lena. Do ponto de vista do turismo de natureza, temos especial cuidado na valorização geológica e paisagística do nosso território integrado no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Porém, não devemos deixar de realçar o edificado, nomeadamente o Castelo de Porto de Mós onde foi feita uma recente requalificação. Hoje o castelo tem um fluxo de visitantes substancialmente mais elevado do que tinha, graças também à promoção que tem sido feita. Além disso, está no nosso concelho um sítio marcante para a história nacional. Trata-se do local onde se realizou a mais importante batalha medieval que acabou por ditar a vitória sobre os castelhanos e a independência de Portugal. Vale a pena visitar o campo da batalha real de 1385 (batalha de Aljubarrota) e o seu Centro de Interpretação. Por último, não posso deixar de referir as grutas de Mira de Aire, uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal, assim como as grutas de Alvados e de Santo António como locais de elevado potencial turístico que canalizam, já hoje, muitos turistas para esta região

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.
P.C.- São atos de cobardia, de falta de caráter de quem os pratica e reveladores de uma insensatez enorme. Esta questão da violência doméstica tem a natureza legal de crime público, o que significa que a denúncia não está dependente de apresentação de queixa por parte da vítima. Qualquer cidadão que tenha conhecimento da prática de violência doméstica pode e deve fazer uma participação ao Ministério Público para que promova o processo-crime. Mas tenho a perceção de que a legislação tem sido pouco aplicada. Por isso mesmo é que nós temos níveis elevadíssimos de violência doméstica que resultam na morte, sobretudo de mulheres que são violentadas e assassinadas. Continuamos a sentir que esta situação é uma situação pouco controlada sob o ponto de vista público, ou seja, há pouca capacidade de anteciparmos o problema. Muitas vezes, quando conhecemos o problema já é tarde. Demasiado tarde, diria.

J.A.- Estando a população cada vez mais envelhecida, e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.C.- Nós temos, como concelho, uma cobertura razoável em termos de IPSS. É uma cobertura de retaguarda, tanto ao nível dos apoios domiciliários, como ao nível dos centros de dia e dos lares. Para nós, o lar é o último recurso. Apostamos noscentro de dia como estrutura de apoio intermédia, onde a pessoa durante o dia está em convivência com outros seniores e depois vai para sua casa à noite, transportado pelas IPSS ou, em alguns casos, com o apoio do Município. A situação menos violenta, segundo o ponto de vista da preservação da privacidade das pessoas, é estarem em suas casas durante todo o dia indo pessoal técnico da IPSS levar-lhes as refeições e fazer-lhes a higiene pessoal. A este nível nós temos uma cobertura razoável e, embora a zona da serra ainda não tenha nenhum centro de dia, estamos a trabalhar nesse sentido. Depois, em conjunto com as Juntas de Freguesia, apoiamos os idosos através do programa de projeto de envelhecimento ativo. Este programa conta com um conjunto de atividades dirigidas aos seniores, tais como passeios a vários locais dentro e fora do concelho, artesanato, partilha de conhecimentos, conto de histórias, jogos tradicionais etc... Depois temos também ginástica e outras atividades de natureza mais física ou fisioterapêutica. Gostaria também de lembrar o nosso projeto, intitulado “10 Mil Vidas”, destinado àqueles que estão em casa literalmente sozinhos de dia e de noite e que denotam pouca autonomia. Oferecemos a estas pessoas um telefone especial que as mantém ligadas a um familiar. O funcionamento é muito simples, bastando que o idoso toque no aparelho para este enviar automaticamente uma mensagem ao familiar. Este é um projeto já com dois anos e que. nesta altura de pandemia, está ainda mais ativo que nunca pois alguns dos idosos que estavam nos centros de dia passaram a ficar em casa e surgiu a necessidade de reforçar o programa. Depois, todos os anos fazemos almoços de idosos, promovemos um encontro entre todos os idosos do concelho, institucionalizados e não institucionalizados. Existem ainda as atividades da Universidade Sénior de Rotary, etc.. Nós temos de alguma forma, a preocupação de combater o grande problema da solidão dos idosos, que muitas vezes não é compensado pelas próprias famílias. O nosso objetivo é apenas um: que os nossos idosos, num processo de envelhecimento ativo, assegurem o seu bem-estar e a sua felicidade tornando-se naquilo que eu entendo por “pessoas mais felizes”.

J.A.- O que acha das medidas tomadas pela DGS, para contenção do COVID-19?
P.C.- Penso que a Direção-Geral de Saúde (DGS), que tem a responsabilidade primeira e o conhecimento da matéria, tal como todos nós, tem andado um bocadinho a navegar “à vista de costa”, como se costuma dizer. Quero com isto dizer que, num primeiro momento a DGS disse que não era obrigatório o uso de máscara e depois veio a dizer que era obrigatório. Também num primeiro momento disse que provavelmente não seria necessário o confinamento e depois veio a verificar-se que realmente era necessário esse procedimento. Além disso, a DGS também afirmou que o problema era na China e que, por isso mesmo, não chegava cá com facilidade e afinal nós estamos cá com a pandemia, e de que maneira. Portanto, julgar as coisas depois de acontecerem é tarefa fácil, mas tomar decisões antes delas acontecerem, e acertar nas previsões, é mais difícil. E a DGS tem aqui a tutela e a responsabilidade em áreas que nós, autarcas, não dominamos. Nós tomamos as medidas possíveis e muitas vezes são tomadas tarde demais porque as orientações da DGS também chegaram tarde. Exemplo disso é a questão das máscaras que nós poderíamos ter começado a distribuir mais cedo caso a sua aquisição tivesse sido acautelada antes. Mas para isso teríamos antecipadamente de saber se seria obrigatório usar as máscaras..., Ora, nós, autarcas, fomos confrontados com a necessidade de tomar decisões, muitas vezes, conflituando com as próprias determinações da DGS, nomeadamente quanto aos equipamentos de proteção individual. Mas concordo plenamente com a importância de ter sido feito o confinamento. Nós tínhamos de o fazer, sob pena de estarmos com situações absolutamente descontroladas e apelámos à população para que ficasse em casa. Tanto a nível da população como a nível das instituições, devo dizer que as autarquias foram o primeiro suporte de abertura das áreas Covid-19 nos centros de saúde para testes nas suas regiões, como uma área no Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, e uma em Pombal. Foi um avanço, em boa hora, porque acabámos por ter aqui resposta da própria DGS a muitas solicitações, através da Linha Saúde 24. Devo dizer que as respostas foram consentâneas com a devida urgência até porque mesmo para se controlarem as redes de contacto, é fundamental que haja testes para se perceber quem está ou não positivo e assim proceder de forma eficaz à travagem na propagação da infeção. Este trabalho foi feito muito pelo impulso dos autarcas e aqui nunca foi uma região de muitos casos. Houve um trabalho conjunto entre todos os presidentes da região de Leiria o que levou a que fossem feitas ações de sensibilização, apelos e testes. Graças a uma parceria entre o Politécnico de Leiria, a Cruz Vermelha, a Segurança Social e outras instituições, foi possível testar todos os nossos profissionais das IPSS de modo a garantir a segurança dos lares. Existe uma grande cooperação entre a população de Porto de Mós que, de alguma forma, nos ajuda. Quando estivemos confinados, houve uma grande cooperação e sobretudo uma compreensão para que o risco de contágio no concelho fosse minimizado. A próprias pessoas acabaram por ser “polícias” umas das outras. Quanto à prestação do Serviço Nacional de Saúde e nomeadamente da DGS, sempre tomámos as suas recomendações como as mais corretas. Quer se concorde ou não, aquelas são as medidas implementadas pela DGS e são essas medidas que nós decidimos seguir.

J.A.- Com a aproximação do Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transatos?
P.C.- Os incêndios, que ocorrem sistematicamente com a chegada do tempo quente, é sempre uma enorme preocupação para quem é responsável pela Proteção Civil. Apesar de, minha opinião, o país investir pouco em prevenção e muito no combate aos fogos, nós, ao longo destes últimos anos, temos agido empenhadamente numa lógica de prevenção, ou seja, fazemos um investimento na limpeza do que é nosso, quer de forma direta pelo município ou indiretamente através das juntas de freguesia. Além disso, não nos cansamos de apelar constantemente aos proprietários dos terrenos particulares, algumas vezes através de contraordenações ou até mesmo deixando um aviso de limpeza sob a pena de contraordenação. Esta intervenção um pouco mais “musculada” junto de alguns proprietários até tem funcionado. Contudo, este ano foi mais difícil implementar no terreno esta estratégia de persuasão pois, devido à pandemia, as pessoas estavam confinadas no período em que deveriam andar a limpar os seus terrenos. Também temos feito investimentos ao nível da comunidade intermunicipal com a comparticipação na aquisição de um sistema muito eficaz de câmaras de videovigilância com uma cobertura de mais de 80% do território da região de Leiria. Estas câmaras têm um sistema automático de deteção de fumo que, depois, em coordenação no Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) em Leiria, identifica o foco de incêndio. Estas câmaras conseguem fazer um zoom até aos 30 km, para identificar se realmente se trata de um fogo ou não. É a partir destes dados que são tiradas as coordenadas da ocorrência e espoletado o sistema de combate com a comunicação simultânea à GNR e aos bombeiros. Habitualmente são chamados três corpos de bombeiros para fazer a triangulação e, se o incêndio for durante o dia chamam é acionado também o helicóptero estacionado na base de Alcaria. É importante referir que este é o terceiro ano em que temos um helicóptero durante todo o período de verão e que é, sem dúvida, uma das partes importantes no combate aos incêndios. Em relação à média do país, a nossa situação é razoável apresentando muito menos área ardida e muitos menos focos de incêndio. Temos efetivamente trabalhado na limpeza dos espaços rurais e florestais, mas isso não garante que, no futuro, não possamos vir a ter um incêndio de grandes dimensões. Por isso continuamos a investir na prevenção. Temos duas equipas de sapadores florestais permanentemente no terreno que, para além de fazerem o seu trabalho de manutenção e limpeza, estão agora também empenhados da vigilância. Depois, o concelho possui três corpos de bombeiros, tendo cada um deles uma equipa de intervenção permanente totalmente suportada pelo município e pelo Estado. Estas equipas são constituídas por cinco homens que estão 365 dias por ano ao serviço da Proteção Civil do concelho de Porto de Mós. Portanto, sob o ponto de vista da prevenção, vigilância e combate temos uma situação que nos dá alguma tranquilidade, mas que não nos tira a preocupação

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vítimas do mesmo?
P.C.- Desde que aqui estamos não houve vítimas. Os únicos infortúnios que temos enfrentado são alguns incêndios, poucos para ser concreto. Neste momento, o apoio financeiro que é dado aos nossos bombeiros é o dobro daquele que era dado em 2017. Há três anos era dado um apoio de 100 mil euros e atualmente essa verba é de 240 mil euros e destina-se tanto a apoios pontuais como a investimento em viaturas, equipamentos ou em obras de conservação nos próprios quarteis.

J.A.-Qual o maior problema com que esse concelho se debate?
P.C.- Neste momento a saúde, o saneamento básico e a rede de transportes públicos são as nossas três grandes preocupações. As freguesias do nosso município apresentam grandes assimetrias. Temos freguesias de baixa densidade populacional, um território muito disperso e zonas bastante vulneráveis tanto do ponto de vista social como territorial. Estas freguesias têm alguns problemas que são conhecidos, sendo o mais apontado a inexistência de saneamento básico. Temos feito um investimento muito grande no alargamento da rede, mas é muito complexo e caro expandi-la a estes territórios por força da dispersão populacional e da morfologia rochosa do subsolo. A título de exemplo, confesso a dificuldade no abastecimento de água à freguesia de São Bento onde estamos a lançar um concurso para mais uma fase, antes da conclusão da totalidade de abastecimento de água no concelho. No século XXI é difícil de compreender, que ainda haja alguns lugares que não são servidos por água ao domicílio, mas infelizmente assim é... Investimentos em saneamento básico são um pouco avessos aos autarcas porque só dão “chatice”, mas é uma tarefa que tem de ser feita inevitavelmente até por que, se não o fizermos, arriscamo-nos a criar problemas sérios ao ambiente e às pessoas. Depois temos uma fraca ligação de transportes públicos rodoviários. O transporte público de passageiros atual é prestado por uma entidade privada que visa o lucro económico da operação. Por isso mesmo, é difícil ter itinerários de transportes que apenas são utilizados duas ou três pessoas por dia. Não sendo sustentável, as operadoras deixam de fazer essas linhas e nós temos tido alguma dificuldade em agilizar formas de transporte que vão ao encontro das necessidades do reduzido número de utentes. Temos agora um concurso público internacional para toda a região no âmbito da comunidade intermunicipal e esperamos que com esse concurso possamos vir a ter algumas linhas que até agora não existem ou, se existiram, foram descontinuadas. Reconhecemos a importância de uma rede de transportes públicos para a promoção da coesão territorial na aproximação e interação de pessoas entre as várias freguesias e, por isso, a falta desta rede é uma dor que nós temos. Embora não dependa exclusivamente da nossa ação, este assunto mexe muito connosco, pois sentimos bem os transtornos que tal situação acarreta para a nossa população. O outro tema também assente em princípios de difícil compreensão é o acesso dos nossos munícipes à saúde. Nós temos uma Unidade de Saúde Familiar (USF) que serve a população do Juncal, Pedreiras e Calvaria e que está a funcionar genericamente bem. E depois temos na freguesia de Porto de Mós uma Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP), o Centro de Saúde que serve o resto do concelho. Esta UCSP não tem a filosofia das USF pois estas instituições trabalham com alguma autonomia de gestão e que permitem aos profissionais trabalharem com objetivos. Aqui na UCSP trabalha-se com o chamado “sistema antigo” e está a ser difícil de lidar com isso. O que acontece é a quase permanente falta de médicos em várias freguesias. Nós temos lutado muito para que esta questão da saúde seja alterada e não temos conseguido. Embora a saúde não seja da responsabilidade do Município, temos assumido compromissos de requalificação de algumas instalações ao abrigo de uma parceria que estabelecemos com a autoridade regional de saúde. Já fizemos obras de requalificação na Calvaria, estão em curso obras em Mira de Aire e vamos também requalificar o polo de saúde das Pedreiras. Portanto, o Município está disponível para dar melhores condições tanto aos profissionais de saúde como aos próprios utentes, mas a responsabilidade de gestão continua a ser do Ministério da Saúde. Nós não podemos legalmente, de maneira nenhuma, contratar médicos mesmo que tivéssemos essa vontade. Vivemos numa situação “pisca-pisca”, ou seja, vem um médico do Norte e a certa altura ele quer regressar e vai mesmo embora. Para isso, pede mobilidade e transferência e nós temos de esperar por um novo concurso. Para as nossas populações esta situação é completamente dramática. A resposta que existe é as pessoas deslocarem-se à sede do concelho. Muitas vezes é o próprio presidente de Junta que vai ao centro de saúde de Porto de Mós com a sua viatura e leva as receitas. Os utentes que estão quase permanentemente sem médico são pessoas idosas, com reduzida capacidade de mobilidade e que, de alguma forma, são prejudicada. Estamos a falar sobretudo de freguesias rurais que distam mais de 15 km da sede de concelho. Nas áreas urbanas registamos a insuficiência das chamadas “teleconsultas”, ficando a população com enormes dificuldades no acesso aos serviços médicos públicos.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.C.- Um outro problema que também consome grande parte do nosso tempo e onde temos tentado agir para que se resolva o assunto é a falta de rede de comunicação nas freguesias onde o saneamento básico também é fraco. Direi que ainda estamos longe de atingir o razoável em termos de saneamento básico, mas as vias de comunicação também são uma das nossas preocupações.

J.A.-Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nesse concelho?
P.C.- A principal mensagem que levo é o sentido de pertença, ou seja, de estar e ser de Porto de Mós e querer evidenciar isso. Somos um concelho unido em torno de causas e somos muito dispersos quando as causas não acontecem. Por isso mesmo, sentimos a obrigação de agir no espaço público em torno das causas comuns, afinal “Porto de Mós somos todos nós”, como diz o lema do nosso mandato. Quando cheguei à presidência da Câmara, uma das coisas que mais me atormentou foi o facto de ter a população das várias freguesias pertencentes a Porto de Mós a dizerem que não são do município. E nós, quando estamos à frente do concelho, temos de fazer tudo para que aconteça o contrário, ou seja, não só criar uma coesão territorial, mas também social. Um grande exemplo dessa capacidade de agregação da população do concelho em torno de uma causa são as Festas de São Pedro. As pessoas sentem orgulho nesta época festiva e, sem dúvida, que todos afirmam aos visitantes “eu sou deste concelho, eu sou de Porto de Mós”. Mas o verdadeiro desafio está em fazer isto acontecer todos os dias. Por isso mesmo, decidimos começar por promover aquilo que, no nosso entender, é o ícone principal do concelho, o nosso Castelo. E isto resultou numa imensidão de visitantes que depois gerou uma assunção, por parte de todos os munícipes, de que o castelo também é deles. No fundo, este projeto de promoção do concelho não pode ser pensado só em trazer turistas, mas tem também de ser um projeto de coesão social. E também fizemos isso com o nosso festival “Viver Porto de Mós” que passou a ser itinerante. Desta forma conseguimos estabelecer contacto e relações entre a população das várias freguesias. E, portanto, o nosso grande objetivo, e que levamos a todos os sítios, é de afirmar e acentuar este sentido de presença de ser de cá. Eu tenho essa preocupação com o concelho, quero que os mais velhos e os mais novos sintam orgulho em ser de Porto de Mós. E é este sentimento que será potenciador da fixação de pessoas no nosso concelho, de gente que nos escolhe para aqui viver e constituir família ou para investir ou até mesmo, quem sabe, passar a velhice por aqui. Uma das coisas que mais me apraz é, sobretudo nos mais novos, ouvir a afirmação de que Porto de Mós vale a pena. E acho que hoje este concelho vale mais a pena do que há três ou quatro anos atrás. As pessoas gostam de ouvir falar em Porto de Mós quando, sendo de cá, estão em diáspora. Exemplo disso são as centenas de mensagens enviadas por pessoas de todo o lado a falar sobre os muros de pedra seca. E eu sinto, neste momento, que a população tem orgulho em expressar a sua naturalidade. E, por isso é que, tudo o que fazemos procuramos fazer bem. Só assim concluímos os processos de consciência tranquila e, naturalmente, com o tal sentido de pertença mais reforçado.

J.A.- A câmara municipal tem algum tipo de parcerias e protocolos com instituições de ensino? Em que áreas e como se desenrolam esses protocolos?
P.C.- Sim. Temos parcerias com o Politécnico de Leiria, com a Universidade do Porto e com a Universidade Aberta, que tem um centro local de aprendizagem, aqui em Porto de Mós. O protocolo com o Politécnico de Leiria abrange diversas áreas. Destaco, na área do turismo, a elaboração de um plano estratégico para o turismo sustentável do concelho e que vai ser apresentado já no início de setembro. Este projeto foi feito com a Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar do Politécnico de Leiria, localizada em Peniche. No campo da saúde temos protocolos para estágios em diversas das áreas, como nutricionismo, terapia da fala e enfermagem. Também temos parcerias com as outras escolas do politécnico, como a Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG) e com o Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID) que pertence às instalações da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS). O Politécnico de Leiria é naturalmente um parceiro privilegiado e que inclusive lidera, em conjunto com outras entidades, o Plano de Ação de curto e de médio prazo que foi apresentado pelo Gabinete Económico e Social da Região de Leiria (GESLR). Podemos afirmar que o Politécnico de Leiria é sempre um “parceiro de primeira linha”. Com a Universidade do Porto a parceria é de oferta de saída de emprego para os estudantes das várias faculdades da universidade. Através do Gabinete de Inserção Profissional criamos várias oportunidades de emprego, disponíveis na própria plataforma da universidade que encaminha a proposta para os alunos e para as empresas requerentes. Além disso, também se faz a promoção dos seus doutoramentos na área da geologia, no âmbito do Maciço Calcário Estremenho, dada a sua enorme importância e temos um conjunto de geo-sítios relevantes que, se surgir a oportunidade de apoiar futuros doutores, nós cá estaremos para os apoiar. A parceria com a Universidade Aberta também é de realçar. Esta é uma universidade pública e funciona exclusivamente online, ou seja, para todos aqueles que quiserem tirar um curso no Ensino Superior em e-learning. A universidade tem um dos seus centros locais de aprendizagem aqui em Porto de Mós, que funciona no Espaço Jovem, dirigido a todas as pessoas da região.

J.A.-Como é a situação financeira da autarquia?
P.C.- A situação financeira do município é boa. Após fecharmos as contas de 2019, comprovámos que a situação atual é muito confortável. Temos a dívida mais baixa dos últimos 20 anos. E isto é o resultado de uma grande preocupação em reduzi-la bem como em fazer poupanças onde achamos possível, nomeadamente na despesa corrente, para conseguirmos utilizar o que sobra em futuros investimentos. O ano passado tivemos um ano difícil em termos de execução de obras, mas não gastámos o dinheiro. Decidiu-se guardar o restante para se investir este ano e dar o arranque necessário nas obras.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?
P.C.- Criámos um Gabinete de Apoio às freguesias, coordenado pelos vereadores, que recebe diversos tipos de pedidos das Juntas de Freguesia através de uma caixa de correio eletrónica. Esta caixa recolhe todos os pedidos feitos durante a semana e nós, ao fim de semana, damos resposta às solicitações que forem possíveis. Prestamos também apoio administrativo nos concursos para recrutamento de trabalhadores que são feitos pelos nossos serviços e assim deixam de ter custo com consultoras externas. Sempre que haja uma solicitação para uma nova obra nós também apoiamos e, muitas vezes, são os nossos técnicos que acompanham essas obras. Nestes assuntos é o nosso Gabinete de Arquitetura que define, em conjunto com os respetivos presidentes de Junta, a natureza da própria obra a realizar, pois pretendemos fazer as coisas com a devida ponderação e com um projeto. Além disso reforçámos de forma muito significativa a possibilidade de os presidentes poderem fazer obras na sua Junta de Freguesia. Os nossos contratos interadministrativos, que até 2017 rondavam os 75 mil euros para o conjunto das dez freguesias, contam agora com uma verba de apoio que ronda os 275 mil euros. A limpeza e a manutenção dos caminhos, os espaços envolventes às escolas primárias e pequenas reparações ou as podas de árvores são tudo responsabilidades das Juntas, ao abrigo de um programa de descentralização de competência entre as Junta de Freguesia e a Câmara Municipal. Este programa de descentralização tem já três anos de existência e o nosso objetivo e dotar as Juntas de Freguesia de recursos financeiros para que façam bem o que está protocolado. Umas fazem-no, outras infelizmente não, mas essa é uma situação que tem de ser melhorada aos poucos.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população do seu concelho?
P.C.- No atual contexto quero enviar naturalmente uma mensagem de esperança. Esperança de que vamos ficar melhor do que aquilo que estamos neste momento. Vamos ter que aprender a viver de uma forma um pouco diferente. Mas eu sou otimista e tenho o pressentimento de que nós vamos sair mais fortes desta pandemia. O que eu quero mesmo dizer às pessoas é que acreditem. Acreditem que é possível se todos cumprirmos as regras e formos rigorosos, pois uma vacina segura, que combata o Covid-19, não vai aparecer tão cedo. E nós continuamos cá a desempenhar o nosso papel. Continuamos a construir o nosso futuro comum, a dar estímulo à economia e vamos reforçá-los. Vamos lançar uma série de obras, estamos a criar uma plataforma de negócios online para todos os que estejam interessados em vender os seus produtos através dela. Iremos ser o motor de uma economia local muito abalada por este problema gerado pelo novo coronavírus. Consequentemente, sendo o nosso concelho uma das extremidades da região de Leiria, queremos ser o motor de toda uma região de onde estamos implantados. Temos de ter fé e acreditar que isto vai melhorar e nós estamos a trabalhar para que efetivamente as coisas fiquem melhor depois da pandemia. Este é a razão que nos tem impulsionado a avançar com as obras de ampliação da zona industrial de Porto de Mós — algo fundamental para garantir o futuro —, que nos leva a criar o espaço de incubadora e o espaço de empreendedorismo — para, uma vez mais, garantir a fixação dos mais jovens — que nos leva a criar e requalificar o antigo posto de turismo, dando-lhe uma nova roupagem e fazer dele o novo posto de turismo. Penso ser importante desenvolver as áreas do empreendedorismo e das novas tecnologias para que o concelho de Porto de Mós também seja uma referência. Estimulamos as famílias em termos de redução de impostos pois achamos que oferecer melhores condições de vida é um fator decisivo quando se toma a opção de vir para cá viver. Ao apoiar a natalidade estamos, de alguma forma, a dar o estímulo aos mais jovens para que eles não só constituam família, mas também que se fixem cá. Estamos no caminho de tornar Porto de Mós não só num concelho mais falado, mas também mais atrativo e a mensagem que eu passo é essa. É importante que tenhamos orgulho na nossa terra porque se todos tivermos orgulho nela, ela será necessariamente melhor.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.C.- A família é um suporte importantíssimo. Nós colocamos sempre à frente a vida de autarca e, se a nossa família não compreendesse, nós teríamos de gerir a nossa própria vida pessoal de outra forma. Por isso mesmo a família é o suporte fundamental, é o nosso pilar, também na tomada de certas decisões. Neste tempo de pandemia isso foi, para mim, muito evidente. Nós passamos muito tempo a tomar decisões que não sabemos se vão dar certo e, muitas das vezes, elas mexem com o bem-estar da população. Decisões essas que depois de as coisas acontecerem são fáceis de avaliar, mas que antes de serem tomadas, por mais pequenas que sejam, não se tem a certeza. Nós temos de ser muito cuidadosos sobretudo quando estamos a mexer com o bem-estar das pessoas...

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.C.- Acho que é importante que se perceba que o papel dos autarcas é o de proximidade com os outros autarcas de freguesia e a relação direta que têm com os seus fregueses. Eles são o primeiro rosto de resposta aos problemas que a população tem. O segundo rosto é o do presidente da Câmara e os vereadores. O papel de um jornal como este, ao dar visibilidade um tanto transversal às autarquias deste país fazendo um levantamento das ações e atuações dos vários autarcas, mostra, no fundo, que todos os autarcas têm em comum esta relação de proximidade com a população que democraticamente os elegeu e a consciência de que cada vez mais tem de ser assim. As pessoas precisam de alguém que as tranquilize, alguém que lhes dê respostas e essas são dadas, sem dúvida alguma, pelos presidentes. Portanto, o jornal tem aqui um papel importante de divulgação e dinamização da ação e do desempenho dos milhares de autarcas deste país.

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