JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Setembro 2019 - Nº 143 - I Série - Guarda e Castelo Branco

Guarda e Castelo Branco

Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Montes da Senhora

Carlos Manuel Ribeiro Gonçalves

J.A.- Que conclusões dos últimos resultados das eleições Europeias?
P.J.- A conclusão imediata é que as pessoas não estão devidamente motivadas e informadas sobre a real importância das mesmas para o futuro dos eleitores. A elevada abstenção é disso uma amostra óbvia.
O facto de os candidatos falarem mais de política interna também não relevava para as pessoas terem maior motivação.

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J.- Em termos de sector primário o facto de se ter desenvolvido grandemente a vitivinicultura (em que os Grupos Monte Barbo e Alvelus investiram fortemente), a olivicultura (com os Lagares da Catraia em destaque), o forte investimento no limão e na cereja, por parte de vários agricultores (José Bernardino Fernandes, Carlos Fernandes, Helena Fernandes, Leonel Gonçalves, Luís Pereira, António Laia Ribeiro, …) e até em Physalis (por parte do Nuno Fernandes), leva-me a acreditar que, para lá das excelentes condições que temos há uma vontade de se desenvolver o sector agrícola. Por outro lado, temos o aproveitamento dos produtos que tem sido bem desenvolvido onde podemos referir o esforço, por exemplo, dos lagares tradicionais (Cooperativa Agrícola dos Montes da Senhora e Galcoop, do Chão do Galego) para que o azeite tradicional e familiar continue a ser potenciado.
Já no que toca ao turismo, temos o desenvolvimento de Unidades de Turismo Rural (Refúgio do Raposo, no Casalinho, e Casas dos Carregais, na referida localidade), o Hotel Rural da Catraia (que, para lá da vertente alojamento, tem restauração) e o Restaurante da Catraia, onde se desenvolvem boas práticas de acolhimento e mostra da gastronomia. Na envolvente à freguesia temos praias fluviais de referência sendo, no entanto, ambição da mesma vir a ter o que o atual Secretário de Estado da valorização do interior, João Paulo Catarino, ao tempo em que era Presidente do Município de Proença-a-Nova, chamou “ponto de água recreativo”, reconhecendo, já em 2014, ser a única Freguesia do Concelho que ainda não dispunha de tal espaço. Os espaços de comércio abundam pela Freguesia bem como os cafés o que permite que haja a certeza de nada faltar a quem aqui se dirija.
Por fim refiro dois Projetos que serão importantes para a Freguesia: o Miradouro/Torre de Observação da Serra das Talhadas (que a Câmara assumiu ser projetado por Siza Vieira) e o Observatório Astronómico do Casalinho (o qual, devido à localização já existente, permitirá uma observação dos astros sem o prejuízo da luminosidade urbana, em condições propícias).

J. A. – O aumento do desemprego gerou muita pobreza, como está essa freguesia a gerir esse problema?
P.J.- Em termos reais o facto de as referidas unidades de turismo/comerciais terem trazido algumas pessoas de fora da Freguesia puderam contrapor a saída de muitos para o exterior. O maior problema, em meu entender, é mesmo a falta de gente nova em quantidade o que penhora a existência desta e doutras freguesias em termos futuros. Tenho um grande respeito por quem, insistentemente, como eu, se manteve por cá e continua a acreditar que, um dia os que, compreensivelmente, saíram terão a vontade e possibilidade de regressarem.
No período de verão damos emprego a algumas pessoas para fazerem vigilância, sendo que tentamos variar, todos os anos, as pessoas escolhidas para que mais gente possa usufruir desta atividade.
Por fim, refiro que o Município ou o Governo podiam criar condições para que mais casais jovens se fixassem no interior, podendo fazê-lo pela via direta ou indireta: explicando, podiam dar apoios financeiros ou, criando/arranjando espaços de alojamento e benefícios fiscais.
O município já tem dado benefícios no IMI para casais com filhos, os quais têm sido votados, unanimemente, na Assembleia Municipal, mas poderiam ser melhorados ajudando os que já cá estão e os que se fixassem.

J. A. – O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente no nosso país e qual a causa e efeito?
P.J.- Em meu entender este flagelo resulta de vários fatores sendo que os mesmos variam de caso para caso, no entanto a ideia que tenho é que nada justifica essa situação sendo preferível que, em casos de dissonância, cada elemento do casal siga a sua vida sem necessidade de chegar a extremos de haver violência doméstica. Na nossa Freguesia, que seja do meu conhecimento, creio não haver casos repetidos relatados desta situação: as situações esporádicas não têm tido continuidade e têm sido resolvidas.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar é, neste momento, uma infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J.- Aqui, muitas vezes, para além de problemas devidamente identificados (a única vantagem de ter uma pequena freguesia) e acompanhados, no que a este caso se refere, creio não haver problemas de maior: em termos juvenis talvez haja algum abuso de álcool mas, nestas zonas, como em todo o Portugal, este sempre foi comum às festividades e convívios. Já nas escolas (espaço onde trabalho) não creio que haja problemas de maior, sendo que a raridade dos mesmos faz com que sejam resolvidos mais facilmente.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.- Para mim a violência é sempre gratuita porque, a partir do momento em que se passa da dissonância de pontos de vista para a ofensa pessoal, já estamos a entrar num campo incompreensível. As variedades e diversidades são o que o nosso mundo tem de melhor: sem a existência do “diferente” o mundo seria um marasmo e mesmo uma impossibilidade. As ideologias clubísticas, políticas, sociais, religiosas, …, é que nos permitem ter uma ideia plural do mundo e repensá-lo para o compreender. Fora isso teríamos uma ditadura em que a vontade de um se sobrepõe às dos demais e, aí, nada de novo se criaria.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J.- Esse trabalho, na nossa Freguesia, é prestado, maioritariamente, pelo Centro Social CRF de Montes da Senhora e pela Fundação Joaquim Lourenço, em termos de apoio quotidiano, sendo que o isolamento e as condições de higiene domésticas e pessoais são, deste modo, resolvidas. A Junta de Freguesia já disponibilizou apoios esporádicos de valor mais fraco pois as possibilidades também não permitem maiores ambições. Para limpeza do Polo do Centro de Saúde temos um Protocolo com o Centro Social pelo qual pagamos um pequeno apoio financeiro, pois que a ULS de Castelo Branco, nos “ameaçou” que, caso não assumíssemos o mesmo, este seria encerrado.
A Junta de Freguesia, e neste ponto faço-o com meios pessoais, traz, para quem não tem meios para o fazer, o apoio alimentar mensal de Proença-a-Nova, sendo que, neste momento, são três os agregados apoiados.
Em termos de apoio administrativo temos um Espaço do Cidadão e a Junta de Freguesia que se complementam em várias situações: revalidação documental, IRS, Segurança Social, levantamento de pensões, …
A Tesoureira da Junta de Freguesia há muitos anos, Maria José Mendonça, presta um serviço de qualidade pois, gratuitamente, mantém o apoio diário à população, dentro das suas possibilidades.

J.A.- Com a aproximação do tempo quente, Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transatos?
P.J.- Temos uma equipa que, todos os anos, tem feito a limpeza no interior das aldeias, em termos de arruamentos, o nosso funcionário João Nunes que realiza também muitos trabalhos de prevenção (com o apoio do Funcionário Municipal Manuel Henriques, o nosso coveiro), quando este está disponível, e o Município que tem limpo junto às estradas e nos caminhos vicinais pois tem pessoal e maquinaria para tal.
A minha disponibilidade para falar com proprietários e os avisar dos riscos e possibilidades de limpeza dos terrenos nas envolventes urbanas sem serem multados é constante: se resolverem as coisas pela prevenção não terá de haver penalização!

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vítimas do mesmo?
P.J.- Do Governo, propriamente dito, só se for a criação de programas e a deslocação de meios (como a GNR e os GIPS) que, a nível local, têm a função de fiscalizar o cumprimento, em termos de limpezas junto às localidades.
Já quanto às vítimas, temos contribuído na identificação dos lesados (do incêndio de março…) para aferir da possibilidade de serem ressarcidos ou ajudados na recuperação/revitalização dos seus espaços.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.-Certamente que poderíamos elencar vários, mas o envelhecimento/desertificação virão sempre à cabeça pelo que se pretende a criação de mais espaços de apoio social e com mais valências. A criação de um Lar seria umas situações que sempre apoiaremos.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.- A melhoria das vias (bastante destruídas, particularmente nos arruamentos de algumas aldeias, devido à calçada irregular e nas estradas de ligação entre as aldeias), a falta de recursos financeiros, a perda rápida de população, as dificuldades de rede de telecomunicações numa parte da Freguesia, o problema da fibra ter chegado a determinados locais e não ter sido prolongada, …
A falta de transportes públicos em períodos de férias/interrupções letivas, numa zona onde muita gente ainda necessita destes é um óbice que poderia ser colmatado se o Município acordasse com os táxis/empresas de transporte um apoio para, nesta altura, com condições mais acessíveis, transportarem os que necessitassem.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
P.J.- Estando em final de mandato, enquanto Presidente da Junta, espero ter força para continuar a apoiar esta população e a dos territórios envolventes (algo que já faço, independentemente de residirem, ou não, na freguesia). As Freguesias do interior têm de ser apoiadas pelo poder nacional, para que aqui possamos fixar população, já que muitos espaços de serviços urbanos poderiam ser substituídos, com eficácia, por atividade doméstica: eu, pessoalmente, dou sempre como exemplo os call centers onde se colocam pessoas em espaços fechados e limitados, a fazer um trabalho rotineiro, que poderia ser feito, eficazmente, em localidades da nossa região se lhes criarmos condições. As casas em ruínas, se reconstruídas, poderiam ser alugadas ou vendidas e trazer um substrato mais jovem para as localidades.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J.- Levo sempre uma mensagem de que temos tudo para acolher todos com qualidade: só falta mesmo gente jovem porque, de resto, qualidade de vida e solidariedade é aqui! Sem ruído, muito sossego, tudo perto, … investir aqui seria criar condições para que mais pessoas pudessem fixar-se e recuperar os imóveis abandonados e cuidar dos terrenos, ajudando na prevenção, naturalmente, dos incêndios.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J.- Com um FFF de 45052€ não temos, certamente, muitas ambições de fazer obras faraónicas, mas temos, com o apoio material do município, tentado realizar alguns trabalhos de melhoria dos espaços, normalmente em termos de vias e património, como o caso de fontes, muros, valetas, fornos, pinturas, colocação da toponímia (quando nos é enviada pelo Município), …

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J.- A Câmara de Proença tem tentado apoiar dentro das suas possibilidades, dando apoio financeiro nos acordos de execução, apoio material nas obras, placas de toponímia e números de polícia, … A relação tem sido de tentativa de cooperação sendo que, como é compreensível, da nossa parte desejaríamos sempre ter mais e com maior celeridade.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.- Queria enviar um agradecimento muito grande pela confiança que sempre depositaram em mim, sendo essa a maior recompensa que me poderiam dar. A algumas vozes dissonantes/negativas quero agradecer o desafio que sempre me colocaram, pois sem elas não me teria sentido obrigado a melhorar e evoluir.
Espero que, de futuro, todos, apoiantes e oposição, tenham uma vida feliz nesta Freguesia e continuem a lutar por ela.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.- Só Deus e a minha família sabem: tendo tido sempre o cuidado de não falhar à Freguesia e de tentar não falhar à família. Tenho de enviar para a minha esposa e para os meus dois filhos, o meu maior agradecimento pois têm demonstrado paciência para as minhas ausências, quando a absorvência da minha vida política o exige. Para além de Presidente da Freguesia, sou Secretário da Comissão Política Concelhia do PSD, Delegado à Assembleia Distrital do PSD, e já fui Secretário da Direção do Centro Social, Presidente da Mesa da Liga dos Amigos de Montes da Senhora e Presidente do Lagar Social de Catraia Cimeira. Em termos de ANAFRE, sou o atual Presidente da Assembleia Distrital de Castelo Branco e membro do Conselho Geral Nacional. Tal quantidade de cargos, a juntar à única profissão que tenho, Professor do 1º Ciclo (que costumo referir como a única ocupação que escolhi já que, nas demais, fui escolhido por outros…) deixam-me muito pouco tempo livre para estar com a família e amigos. Vou fazendo um esforço sendo que, ultimamente, a gestão de tempo me tem sido um pouco mais favorável. Continuo, no entanto, fiel ao meu lema “Sempre ao dispor para servir!” o que, inclusive, me valeu o epíteto de “moço de recados” por parte de alguns elementos da oposição: não lhes poderia estar mais grato pois, assim, apercebi-me que as pessoas confiam, em mim, para aquilo de que necessitam e que todas as solicitações são de valor por mais simples que possam parecer.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.- Pelo trabalho dignificante que este jornal desenvolve só posso desejar que continuem a prosperar no vosso trabalho, dando a conhecer as autarquias do nosso país, as suas diferentes realidades, os elementos que nelas tentam apresentar o seu melhor em prol da população e, claro, das suas regiões e de Portugal. Um bem-haja grande pela oportunidade que me deram.

Carlos Manuel Ribeiro Gonçalves

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