JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Setembro 2019 - Nº 143 - I Série - Guarda e Castelo Branco

Guarda e Castelo Branco

Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Famalicão da Serra

Honorato Pereira Esteves

J.A.- Que conclusões dos últimos resultados das eleições Europeias?
P.J.- Atendo-nos exclusivamente à distribuição dos votos, a primeira leitura é a de que a solução governativa saída das últimas legislativas (vulgo, “geringonça”) acabou por conseguir passar ao eleitorado uma mensagem mais consistente do que a dos partidos de centro-direita, desgastados pelo período de austeridade imposto pela troika. A segunda, mais preocupante, diz respeito à abstenção e reflete, para além do crescente distanciamento entre os eleitores e as forças políticas que deveriam representá-los, um descrédito generalizado face à base ideológica que (supostamente?) sustenta os partidos políticos tradicionais – dando assim seguimento à tendência para aumentar o aparecimento de candidatos independentes e de novos alinhamentos políticos, aos mais diversos níveis.

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia.
P.J.- A freguesia de Famalicão, como a generalidade das freguesias do interior (ou, eufemisticamente, “territórios de baixa densidade”), resiste aos efeitos da centralização e da globalização, enquanto fatores de atracão da população para os centros urbanos – situação agravada pela quebra demográfica a nível nacional.
Por isso, já é assustadoramente “normal” o encerramento de empresas locais, aqui patente no recente encerramento da “CONFAMA”, empresa de confeções na qual laboravam mais de meia centena de trabalhadores desta freguesia.
Ainda assim, algumas micro empresas continuam a garantir a economia local e a subsistência das famílias, ainda que oferecendo empregos pouco qualificados. Como fatores de atracão, há a destacar o dinamismo associativo e cultural da freguesia: a única Banda Filarmónica do concelho, Bombeiros, um Centro Cultural com três grupos musicais ativos, uma IPSS com Centro de Dia e outras associações incipientes vão assegurando uma dinâmica interna que é fator de coesão social, mas também de atracão turística. Por outro lado, destacamos a localização da freguesia no Parque Natural da Serra da Estrela e Rede Natura 2000, os recursos paisagísticos naturais, bem como a relativa proximidade aos centros urbanos da Guarda, Guarda, Covilhã, Belmonte e Manteigas, que constitui um fator a considerar, nomeadamente em termos de alojamento.

J. A. – O aumento do desemprego gerou muita pobreza, como está essa freguesia a gerir esse problema?
P.J.- Conforme acima referido, o recente encerramento de uma fábrica de confeções, que lançou no desemprego mais de meia centena de habitantes da freguesia – mas afetou igualmente toda a economia local de comércio e serviços –, é a mais recente manifestação da falta de oportunidades com que se debatem as gentes do interior. Ainda assim, algumas pequenas empresas do ramo da construção civil e serviços silvo-agrícolas, a par dos Bombeiros e da IPSS local, vão ainda garantindo alguma oferta de trabalho local – embora maioritariamente dirigida a mão de obra pouco qualificada.

J. A. – O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente no nosso país e qual a causa e efeito?
P.J.- Penso que a violência doméstica, enquanto problema social, tem raízes educacionais e civilizacionais: os “brandos costumes”, tantas vezes apregoados como uma das virtudes da nossa portugalidade, também significam muitas vezes, infelizmente, olhar para o lado e fechar os olhos a uma série de fenómenos, que não apenas a violência doméstica.
Por outro lado, também não é de excluir que aquilo que está a aumentar, de facto, seja o conhecimento e a exposição pública da real dimensão do problema.
Quanto aos efeitos, todos estamos sobejamente informados de como a violência reproduz e gera violência. Já no que toca a agir e corrigir, é fácil acomodarmo-nos à ideia de que isso é problema do Estado e das Instituições, quando o ponto de partida deve ser cada um de nós, na sua consciência cívica.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento um infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J.- O facto de esta ser uma freguesia rural do interior, onde a família e a comunidade ainda conseguem fazer prevalecer uma série de valores sociais bastante fortes, contribui para atenuar esses problemas. No entanto, a aldeia global está aí…

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.- Sendo um problema civilizacional, que transcende fronteiras e geografias, deve sempre preocupar-nos, pela forma como reflete a saúde (ou a falta dela) de uma sociedade.
Uma sociedade equilibrada, como aquela que almejamos construir, deveria promover e difundir valores democráticos, igualitários e humanitários e propiciar a resolução dos conflitos e das situações geradoras de violência. No entanto, a base da sociedade é (ou deveria ser) a família, e essa é uma realidade profundamente diferente da que vivemos na última metade do século passado – aquela que viu nascer os atuais adultos.
A violência sempre existiu – e talvez faça parte da nossa natureza animal, mas acredito que a sociedade pode e deve impor os seus filtros no processo de educação/ socialização. A teoria do bom selvagem é um mito romnântico…

J.A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J.- Pela grande proximidade que mantemos com toda a população da freguesia, estamos naturalmente atentos a todas as situações de carência socioeconómica – devidamente identificadas pelos serviços sociais do Município –, bem como a novas situações que possam surgir. No que concerne ao apoio mais direto, destacamos o acesso à Internet e a serviços públicos como o Portal de Finanças e a Segurança Social.
A Freguesia mantém ainda uma relação institucional bastante próxima com as entidades locais que prestam apoio à população.

J.A.- Com a aproximação do tempo quente, Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transactos?
P.J.- A ação da Junta de Freguesia incidiu sobretudo nas mensagens de sensibilização à população e na limpeza e beneficiação da viação rural, como forma de facilitar acessos e potenciar uma melhor limpeza dos terrenos. A freguesia possui ainda meios de apoio à uma primeira intervenção em caso de incêndio, usados em articulação com o corpo de bombeiros voluntários.

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vitimas do mesmo?
P.J.- O último grande drama vivido na freguesia, foi a morte do jovem bombeiro Sérgio Rocha e de cinco sapadores chilenos, a 6 de Julho de 2006. O apoio então dado pelo governo foi naturalmente canalizado para a família do bombeiro morto, não tendo sido atribuídas ajudas para as áreas de floresta e culturas agrícolas destruídas.
Desde então, a presença do corpo de bombeiros voluntários de Famalicão da Serra, juntamente com as ações de prevenção e vigilância, têm impedido a ocorrência de grandes incêndios no perímetro da freguesia.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.- Elejo como principal problema a diminuição e o envelhecimento da população residente, com tudo o que lhe está ligado: o abandono das terras, a perda de focos de atratividade para a fixação de famílias, como sejam o comércio e serviços, para além da diminuição direta das receitas a transferir do estado central para a freguesia e consequente perda de capacidade de ação, por parte da autarquia.
Travar o êxodo dos nossos jovens, tornar o interior atrativo é uma tarefa para a qual nos sentimos, claramente, impotentes, e que necessitaria de toda uma série de medidas políticas, de discriminação positiva, que não sei se algum governo quererá ou conseguirá tomar.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.- A falta de meios humanos ao serviço da freguesia e a falta de meios financeiros para a sua eventual contratação.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
P.J.- As comunidades rurais são, tradicionalmente, muito apegadas às suas raízes, e isso é um importante fator de conservação de identidade e de coesão territorial. A força desta freguesia reside, em grande medida, na capacidade das suas gentes para fazer muito com pouco.
No entanto, o Estado terá de olhar o território nacional com outros olhos, não se limitando a sacudir responsabilidades e a centralizar proventos.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J.- O investimento é claramente o modo mais eficaz de atrair e fixar população; e a desertificação combate-se com pessoas e com a criação de riqueza.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J.- A Freguesia não tem dívidas… mas também não tem dinheiro em caixa. A situação financeira do Município tem condicionado a realização de investimentos, mas também o uso das receitas correntes para fazer face aos elevados gastos com os serviços garantidos pela Freguesia, nomeadamente a limpeza e manutenção de caminhos, de equipamentos, de espaços públicos e o apoio às instituições locais na sua ação junto da comunidade.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J.- Além do apoio protocolado anualmente, o Município da Guarda presta apoio logístico à Freguesia, ao nível dos serviços técnicos, da cedência de transporte e equipamentos. As coletividades e instituições beneficiam igualmente de apoios determinados por protocolo.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.- Basicamente, elogiar e agradecer a persistência de cada um em valorizar a sua terra; ao mesmo tempo, dizer que procuraremos continuar a ser o seu rosto, os seus ouvidos e a sua voz.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.- Em primeiro lugar, com o apoio imprescindível da restante equipa do executivo, mas também de todos quantos connosco colaboram diariamente.
Em segundo lugar, obviamente, com grande sacrifício da vida familiar, pessoal e mesmo profissional.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.- Desejo que sejam uma voz das grandes e pequenas autarquias, neste país tão diverso e que, por isso, deveria ser tão mais rico!

Honorato Pereira Esteves

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