Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Torres do Mondego

Paulo Jorge de Almeida Cardoso

J.A.- Qual a vossa opinião sobre a temática aeroporto/Montijo?
P.J.-Para nós, o aeroporto do Montijo não nos trará qualquer benefício direto. Lutamos sim, para que seja construído um aeroporto aqui na região de Coimbra, que sirva todo esta população e os operadores turísticos e de carga. Um aeroporto independente que possa fazer concorrência, em termos de tarifas, ao monopólio da ANA/VINCI.

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J.-O sector primário, nesta freguesia, é muito incipiente, resumindo-se a culturas para consumo próprio e a uns poucos viveiristas. Quanto ao turismo, estamos a tentar alavancar essa vertente, dado que a natureza foi generosa connosco e temos polos de interesse que queremos potenciar para atrair todos aqueles que queiram uma zona tranquila, mas perto de tudo aquilo que uma cidade de média dimensão pode oferecer.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.
P.J.-Este é um tema que não deveria existir ou, pelo menos, cuja relevância deveria ser quase nula. No entanto, face a tudo o que a sociedade foi gerando, o respeito pelo próximo passou a ser cada vez menor. Apoiamos toda e qualquer resolução que vise diminuir a preponderância e recorrência destes casos. Temos também a nossa Comissão Social de Freguesia, que desempenha um papel de grande importância no apoio a vítimas deste flagelo social.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento um infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J.-Infelizmente esse é outro resultado da sociedade atual e cujo cerne é idêntico ao tema da violência doméstica. De facto a falta de respeito pelo outro, a que se junta a deriva do facilitismo e da falta de orientação, originadas numa sociedade em que os progenitores quase não têm tempo para educar os seus filhos, tem como consequência este tipo de violência verbal e física com que muitos jovens conduzem a sua vida. Todos somos confrontados com situações destas e tentamos utilizar os meios que temos ao nosso dispor para minorar este tipo de situações.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.-Julgo que nas duas questões anteriores já dei resposta.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J.-A freguesia não dispõe ainda de unidades para apoio aos mais idosos. Está em construção uma unidade privada na freguesia e existem algumas em freguesias vizinhas. No entanto, dado que esta é uma freguesia dormitório de Coimbra e tem um pendor essencialmente rural, muitos dos idosos ainda lavram a sua horta e se mantêm ativos. Aqueles que necessitam de cuidados diferenciados, são geralmente acompanhados pela Comissão Social de Freguesia.

J.A.- O que acha das medidas tomadas pela DGS, para contenção do COVID-19?
P.J.-Julgo que em termos gerais foram razoáveis. O facto de estarmos a lidar como uma situação nova e urgente, obrigou a ir adaptando as medidas ao parco conhecimento que se ia adquirindo com a experiência daqueles que primeiro lidaram com o vírus. Poderão não ter sido sempre as melhores, mas pelo menos permitiram que o sistema de saúde do país não entrasse em colapso, o que seria infinitamente mais gravoso.

J.A.- Com a aproximação do Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transatos?
P.J.-Felizmente, na nossa freguesia os problemas relacionados com os incêndios foram sendo resolvidos sem problemas de maior. No entanto, o facto de a propriedade rústica/florestal ser de pequena dimensão e muito fracionada, adjuvada pelo abandono a que muitas estão votadas, não facilita a tarefa de gestão da enorme mancha florestal que temos. Apesar disso, notou-se algum cuidado, por parte de alguns proprietários, da limpeza dos seus terrenos, o que veio, trazer algum alívio em determinadas zonas populacionais.

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vítimas do mesmo?
P.J.-Em termos de apoios governamentais, não temos tido qualquer um. Antes pelo contrário, a constituição da nossa ZIF (Zona de Intervenção Florestal) demorou imenso tempo a ser validada pelos organismos centrais e mesmo agora, que está constituída, há enormes entraves por parte do ICNF na aprovação dos Planos de Gestão Florestal e nas candidaturas a fundos comunitários para intervenção e ordenamento da mancha florestal.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.-O envelhecimento da população e a desertificação que se começa a notar.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.-Acabar a cobertura de saneamento na freguesia (neste momento temos cerca de 84% do território abrangido por redes coletoras de águas residuais), dotação de infraestruturas tecnológicas avançadas de telecomunicações (fibra ótica/4G/5G) e possibilidade de implementar projetos turísticos na freguesia, que possam alavancar o repovoamento de algumas aldeias.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
P.J.-Como já referi, dotar a freguesia de condições que possam ser atrativas para fixação de população jovem, alavancadas no turismo e desporto na natureza, na implementação de um sistema de telecomunicações tecnologicamente evoluídas e a finalização da rede de saneamento.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J.-Basicamente já referi nas duas questões anteriores e passa por tentar potenciar o turismo e desporto na natureza, para gerar mais negócio e, com isso, a fixação de mais cidadãos neste território lindíssimo.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J.-Apesar de não sermos completamente autónomos em termos financeiros, temos uma situação relativamente desafogada, quer pelo apoio do Município, quer pelos benefícios das várias batalhas que a Anafre tem travado no sentido de dotar as freguesias com os meios necessários à prossecução digna das atribuições que fazem parte da nossa missão.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J.-Até agora, o Município de Coimbra tem regido os apoios às freguesias mediante dois instrumentos que a lei prevê: Acordos de Execução e Contratos Interadministrativos. Embora ambicionemos sempre mais, para podermos beneficiar os nossos fregueses, os valores monetários disponibilizados pelo município são razoáveis. Notamos, no entanto, algumas falhas no apoio às atividades culturais e desportivas por nós promovidas.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.-A mensagem é de que podem confiar no trabalho que desenvolvemos e de apelo à união de todos, para podermos enfrentar os desafios que nos vão sendo colocados.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.-É sempre um equilíbrio difícil de conseguir. Não querendo desmerecer o trabalho dos meus antecessores, que muitas vezes foi difícil e com poucos meios, a velocidade e densidade em que se desenrolam as tarefas diárias e o imediatismo da circulação de informação, obrigam a trabalhos redobrados e, muitas vezes, a trabalho extraordinário para conseguir gerir tudo aquilo que nos é colocado. Juntando a isto a pressão que a torrente legislativa coloca em toda a gestão autárquica, obriga a uma constante aprendizagem e atualização de conceitos, que tornam ainda mais precioso o tempo que temos para esta tarefa.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.-Deixo uma mensagem de incentivo para que continuem o bom caminho da divulgação do trabalho e resultados da gestão autárquica, valorizando assim aqueles que são o garante da estabilidade política nacional e da consolidação da democracia. Bem hajam.

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