JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Outubro 2019 - Nº 144 - I Série - Braga e Viana do Castelo

Braga e Viana do Castelo

Entrevista do Presidente da União de Freguesias de Viana do Castelo (Santa Maria Maior e Monserrate) e Meadela

José António Gonçalves Ramos

J.A.- Que conclusões dos últimos resultados das eleições Europeias?
P.U.F.-A elevada taxa de abstenção, que no corrente ano rondou os cerca de 64,68%, reflecte a falta de interesse da população portuguesa, tanto na política europeia, como na forma como as decisões tomadas no Parlamento Europeu afectam o nosso país. A este facto acresce a falta de conhecimento bem patente na camada mais jovem portuguesa sobre a política nacional, e por inerência, na política europeia.
Esta falta de interesse e descrédito tem vindo a acentuar-se com o passar dos anos, sendo de salientar que nas eleições de 19/07/1987 a abstenção foi de somente 27,58%, tendo vindo a aumentar desde então, até atingir o máximo histórico de 65,34% nas eleições de 2014.
É urgente tomar medidas para alterar esta tendência, e chamar a população às urnas. Infelizmente existe a ideia, na população portuguesa, que a abstenção é a melhor forma de mostrar o descontentamento pelo resultado das medidas tomadas pelos nossos governantes, quer estejamos a falar a nível nacional ou a nível europeu.

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.U.F.-Sendo esta União o resultado da agregação de três Freguesias, os sectores de actividade que caracterizam a Freguesia, são heterogéneos, podendo-se afirmar que, entre o sector primário e o turismo, este último é o mais representativo.
As Freguesias que constituem a União das Freguesias são muito ricas em património natural e edificado, para além de uma gastronomia diversificada, rica em sabores, um clima atractivo e festas tradicionais, muitas delas que remontam há várias décadas.
Todos os anos milhares de turistas visitam o Templo-Monumento de Santa Luzia dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Em Agosto as tradicionais Festas da Senhora D`Agonia reúnem milhares de pessoas em Viana do Castelo, não só turistas, como emigrantes, e portugueses de todos os cantos do país. As nossas praias são ponto de atração para a realização dos mais variados desportos náuticos. Estes são alguns dos exemplos da representatividade do turismo na nossa Freguesia.
Relativamente ao sector primário, temos a agricultura de subsistência ou familiar na agregada Freguesia da Meadela, e a actividade piscatória na agregada Freguesia de Monserrate. Nesta última, apesar de ainda existirem frotas de barcos que se dedicam a esta actividade, não existe nenhuma indústria que depois se dedique à transformação do pescado, sendo o mesmo vendido na Doca Pesca – Lota de Viana do Castelo.

J. A. – O aumento do desemprego gerou muita pobreza, como está essa freguesia a gerir esse problema?
P.U.F.-Relativamente ao desemprego, esta União de Freguesias tem parcerias com entidades que procedem ao recrutamento de pessoas para entidades contratantes, sendo que o nosso papel, para além de divulgar ofertas de emprego, passa por ceder as nossas instalações para sessões de formação e realização de entrevistas.
Paralelamente, apoiamos as associações e entidades locais humanitárias no apoio aos mais desfavorecidos, quer seja através da atribuição de subsídios, quer seja através do apoio logístico na realização das suas actividades.

J. A. – O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente no nosso país e qual a causa e efeito?
P.U.F.-Infelizmente a violência doméstica é um flagelo que tem vindo cada vez mais a público, não só pelo conhecimento de cada vez mais vítimas, como pelas campanhas de sensibilização que daí resultam.
Não sei se poderemos afirmar com toda a certeza que a violência doméstica é um problema somente dos nossos tempos. Não nos podemos esquecer que, em tempos passados, a mulher sofria em silêncio. A mulher era votada ao ostracismo, à exclusão social. O homem era o “senhor” da casa. O homem mandava, e a mulher obedecia. A mulher não tinha o poder, a liberdade de tornar público, de recorrer às entidades competentes, o sofrimento e maus tratos que por vezes lhe eram infligidos em casa, sob a pena de a própria sociedade, incluindo outras mulheres, a condenarem. Estávamos perante uma sociedade muito conservadora.
Quanto à causa/efeito, violência gera violência. No seio de uma família, se é prática habitual as crianças ou adolescentes assistirem a cenas de violência entre os pais, esse sentimento vai-se enraizar no seu subconsciente, sendo que, quando se tornarem adultos, e tiverem a sua própria família, vão adoptar o mesmo comportamento.
Os estudos têm provado que os nossos filhos e netos são moldados pelos genes que herdam de nós, mas novas pesquisas também revelam que experiências traumáticas podem deixar marcas no DNA dos nossos descendentes.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar é neste momento uma infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.U.F.-Felizmente, e em comparação com outras cidades, não posso dizer que a delinquência registada em Viana do Castelo seja representativa.
Contudo, há que anotar que a educação começa em casa, e o que se tem vindo a verificar é que, pelo ritmo de vida que os casais têm, que os obriga a passar cada vez menos tempo com os seus filhos, ou por falta de rigor educacional dos próprios pais, a educação dos nossos jovens fica cada vez mais aquém do desejado.
É fundamental que os pais de hoje assumam que as “suas” crianças serão, no futuro, também elas, pais, mães, e que também sobre elas recairá o dever de educar os seus descendentes. E que se não se retomarem alguns dos “velhos” hábitos ao nível da educação, em breve a sociedade viverá numa total anarquia.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.U.F.-Eu vejo a violência gratuita como forma de impor as suas ideias, ou os seus ideais, não pela razão, mas pelo medo, pela força.
Tal como já referi, relativamente à violência doméstica e à delinquência infantil, e se poderá aplicar à violência gratuita, violência conduz a mais violência, e urge mudar o rumo da educação que é dada aos mais jovens.
Não é através da violência que fazemos valer os nossos ideais, mas sim através do conhecimento e do debate de ideias.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.U.F.-Para além do apoio financeiro que prestamos a várias associações e entidades sociais, que se dedicam ao apoio aos mais idosos, apoiamos igualmente a nível logístico na realização das mais diversas actividades.

J.A.- Com a aproximação do tempo quente, Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transactos?
P.U.F.-Na Sede e Pólos desta União das Freguesias, procedemos à divulgação dos comunicados e folhetos informativos que nos são remetidos pelo Município e pela Protecção Civil.
Paralelamente mantemos actualizado o nosso site, com essa mesma informação.
Sensibilizamos proprietários quer por carta quer por email, para a limpeza dos seus terrenos

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo, e qual o apoio dado às vitimas do mesmo?
P.U.F.-Felizmente, e apesar da quantidade de incêndios que se registaram no nosso país, na área abrangida por esta União das Freguesias não se registaram vítimas.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.U.F.-Tal como já foi referido, esta União das Freguesias resulta da agregação de três Freguesias, sendo que uma delas, Meadela, com características muito díspares das restantes.
Nesse sentido, na área da agregada Freguesia da Meadela, considerando que uma parte ainda apresenta características rurais, o alargamento de vias e mais iluminação pública, seriam os principais problemas a solucionar.
Como problema comum a toda a área da União das Freguesias, temos o problema da limpeza da área que parcialmente é da competência desta Junta de Freguesia, e que representa uma área significativa sendo o nosso quadro de pessoal diminuto.
É de salientar que para a área supra referida, esta União dispõe unicamente de 10 cantoneiros, que por outros serviços nem sempre estão dedicados a esta tarefa.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.U.F.-Intercedemos no dia-a-dia para que sejam reabilitadas as zonas mais degradadas junto do Município, apesar do alargamento das ARU´S, é necessário dar início aos processos de reabilitação.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
P.U.F.-A União das Freguesias de Viana do Castelo (Santa Maria Maior e Monserrate) e Meadela tem vindo a desenvolver-se ao longo dos anos, tanto ao nível populacional, como ao nível do desenvolvimento empresarial, com a criação de Pólos Industriais.
Os incentivos fiscais que o Município concede à fixação de empresas no Concelho é um factor de atracção para as mesmas, pelo que penso que esta tendência de crescimento vai-se manter nos próximos anos.
área urbana da União das Freguesias tem vindo a crescer, sendo que em tempos idos, esta área resumia-se às agregadas Freguesias de Santa Maria Maior e Monserrate. Com o passar dos anos, através da criação dos referidos pólos industriais, da fixação de mais população, expansão das superfícies comerciais e dos prestadores de serviços tal como a Banca para fora daquela referida área, conduziu a que a agregada Freguesia da Meadela, também ela, fosse assumindo as características de uma Freguesia urbana, em detrimento da sua ruralidade, bem como as vizinhas Freguesias de Areosa e Darque.
Todos os factores supra referidos estão interligados, sendo que o desenvolvimento de um - como é o caso da fixação de empresas na Freguesia -, serve de alavancagem para o desenvolvimento de outros – nomeadamente aumento do número de residentes.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.U.F.-A mensagem que procuro transmitir e que é minha convicção, é que a Freguesia reúne todas as condições para as pessoas se fixarem. Existe uma verdadeira política de incentivos para atrair as empresas. Estas políticas tem dado o seu fruto, quer diminuindo o desemprego, quer aumentando o número de pessoas que se fixaram.
As condições de segurança também tem contribuído para a fixação de inúmeros estrangeiros.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.U.F.-A gestão que este Executivo tem levado a cabo ao longo dos anos, tem sido sempre ponderada, de forma a manter o equilíbrio financeiro.
As obras têm sido executadas, provavelmente não ao ritmo que nós gostaríamos, ou que a própria população gostaria, mas sempre de uma forma consciente.
Por isso mesmo, posso dizer que a situação financeira da Freguesia é “saudável”, e se tivesse de fazer hoje uma transição de mandato, e como tal, de contas, o saldo seria positivo.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.U.F.-Alem das verbas transferidas directamente do Governo Central, as Juntas de Freguesia estão dependentes para os melhoramentos que se propõe efectuar das deliberações do Município.
No meu entender pelo trabalho que temos desenvolvido, pelo contributo que temos dado para a melhoria das condições da população, o Município apesar das nossas constantes solicitações, tem sido parco na sua ajuda.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.U.F.-A minha mensagem para os Fregueses é que podem contar com o meu espírito de missão, defenderei os seus interesses até às últimas consequências.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.U.F.-Só a família que tenho me permite que tal aconteça.
Quero aqui publicamente agradecer-lhes a oportunidade que me dão de fazer uma coisa que gosto sendo eles são os principais prejudicados.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.U.F.-Que continuem a dar voz aqueles que estão mais perto de todos os Portuguese.
Parabéns pelo vosso trabalho.

José António Gonçalves Ramos

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