Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Válega

Jaime Duarte de Almeida

J.A.- Qual a vossa opinião sobre a temática aeroporto/Montijo?
P.J.- O aeroporto do Montijo parece-me ser uma excelente alternativa ao aeroporto de Lisboa que "está a rebentar pelas costuras", mas é essencial avaliar, quer do ponto de vista económico, quer ambiental, o investimento, no quadro económico atual (da pandemia).

J.A. – Valorize o setor primário e o turismo dessa freguesia?
P.J.- O potencial turístico de Válega é enorme. A Igreja Matriz de Santa Maria de Válega, o Museu Escolar Oliveira Lopes, o Museu Etnográfico da Casa do Povo, a capela do Cruzeiro da Virgem, a capela de Nossa Senhora de Entreáguas e a sua envolvente, o cais do Puxadouro e o Bico do Torrão, entre outras, são atrações que urge integrar numa nova política concelhia global de desenvolvimento turístico, tendo como objetivo incrementar o interesse para que, um cada vez maior fluxo de turistas visite a nossa freguesia. Não obstante, a Junta de Freguesia de Válega tem procurado potenciar o Turismo, tendo, por exemplo, construído, recentemente, novos sanitários adjacentes à Igreja Matriz de Santa Maria de Válega, para receber, condignamente, os forasteiros, criado o projeto “Válega 360 Graus” e um website que inclui um roteiro do património da Vila de Válega.
A nível económico, os setores secundário e terciário têm pouca expressão na freguesia, sobressaindo atividades como a indústria das madeiras, a construção civil e o pequeno comércio. Já com bastante significado, encontramos o setor primário, não só a agricultura como a pecuária. Assim sendo, a Junta de Freguesia de Válega tem tido a preocupação de melhorar, continuamente, as acessibilidades a empreendimentos agrícolas, estando sempre ao lado dos seus agricultores.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, e das medidas recentemente tomadas, contra este flagelo.
P.J.- A violência doméstica é uma violação dos direitos humanos, um crime abominável que representa infelizmente um flagelo social de grandes proporções. Não obstante, as medidas, recentemente, tomadas, Portugal continua “no mundo da negligência” relativamente à aplicação da justiça restaurativa. Nesta área ainda há muito a fazer…

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento um infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J.- Nenhum jovem nasce delinquente. Não, os jovens fazem-se delinquentes. Fruto de famílias desestruturadas, vítimas da violência doméstica, da negligência, etc. encontramos cada vez mais crianças e jovens sem ninguém com quem falar, sem um pai, sem uma mãe, com irmãos e irmãs igualmente afetados, também eles sem modelos familiares ou alguém com quem falar. Estes jovens não têm nenhum adulto com quem falar. Nem têm nenhuma razão para serem diferentes quando foram os adultos a abandoná-los em primeiro lugar. Investir na Educação é fundamental para impedir que os jovens optem pela criminalidade. Uma possibilidade passa, na minha modesta opinião, por existirem equipas técnicas multidisciplinares nas escolas, formadas por psicólogos, psiquiatras, professores e assistentes sociais que com a sua persistência, dedicação, teimosia, carinho e amor, e que possam dar voz aos jovens que nunca foram escutados.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.- Penso que os meios de comunicação social e a Internet são uma caixa de ressonância. Assim sendo, na minha modesta opinião, talvez seja necessária legislação ainda mais acutilante no sentido de proteger as crianças e adolescentes de certas imagens.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J.- A Junta de Freguesia de Válega criou o programa “Nós levamos até si!” para apoiar, logisticamente, idosos, (entre os quais, incluem-se os infetados com Covid-19), doentes crónicos ou pessoas sob quarentena obrigatória ou profilática, sem retaguarda familiar ou rede de vizinhança, que necessitem de adquirir bens de primeira necessidade e/ou medicamentos e pagarem faturas. Para além disto, mantem contacto permanente, e em articulação, com o Centro Comunitário de Esmoriz, a Divisão de Ação Social da Câmara Municipal de Ovar, a Fundação Padre Manuel Pereira Pinho e Irmã, e Conferência Vicentina da Freguesia de Válega, no sentido do acompanhamento de situações de vulnerabilidade social.
A Junta de Freguesia de Válega criou ainda o “Bazar Solidário de Válega” para angariar produtos alimentares e/ou de higiene pessoal, junto da sociedade civil, para a constituição de cabazes para famílias sinalizadas pela Câmara Municipal de Ovar, Centro Comunitário de Esmoriz e Fundação Padre Manuel Pereira Pinho e Irmã, que estão a viver uma situação de vulnerabilidade social, sofrendo os efeitos económicos da pandemia da doença Covid-19. O Bazar Solidário de Válega tem recebido vários donativos, quer em géneros, quer em dinheiro. Todo o trabalho tem sido desenvolvido, em parceria, com a Conferência de São Vicente de Paulo de Válega, havendo ainda a colaboração de voluntários que têm disponibilizado o seu tempo em prol desta causa nobre, de cariz social.

J.A.- O que acha das medidas tomadas pela DGS, para contenção do COVID-19?
P.J.- Parece-me que são medidas adequadas e que vão sendo ajustadas em função da evolução da situação epidemiológica no nosso país, numa luta desigual contra um inimigo invisível e desconhecido.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.- Finalmente e com bastante atraso foi-nos feita justiça. Falo da obra absolutamente necessária e estruturante que é a conclusão da implantação da rede de saneamento e águas residuais, cuja obra está no terreno e permitirá, finalmente, cobrir praticamente toda a freguesia. Sei dos transtornos que as obras têm causado a todos os valeguenses, mas temos de ter consciência que, sem a sua conclusão seríamos uma freguesia adiada. Sem infraestruturas que permitam, a melhoria da qualidade de vida da população, a instalação de novas empresas e a preservação do ambiente, o desenvolvimento jamais seria possível e sustentável. Importa contudo lançar um desafio quer à Adra (dono da obra) quer à Câmara Municipal de Ovar (como entidade fiscalizadora) - esperamos que a qualidade da nossa rede viária, tão depauperada, seja reposta com qualidade, no mais curto espaço de tempo pois s rede viária é, sem sombra de dúvidas, também um fator essencial ao desenvolvimento. A situação que se vive em Válega é de verdadeira calamidade, o que está a causar a legitima indignação da população. Continuamos a ter uma rede viária, que mau grado algumas intervenções levadas a cabo nos últimos meses continua um caos. São inúmeras as ruas (pelo menos trinta e uma) que necessitam de intervenção, quer na repavimentação do piso, quer na intervenção ao nível da implantação de redes de águas pluviais.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.- Quero que os projetos das minhas gentes possam contribuir para o engrandecimento de Válega, para isso importa criar as condições de atratividade para a fixação de novos investimentos. A implementação da chamada Zona de Atividades Económicas de Ovar Sul, é essencial para o cumprimento deste objetivo. Tenho consciência da complexidade do projeto e reconheço haver empenho da Câmara Municipal para a sua concretização, sei que o processo já se iniciou, daí que espero, dado o consenso existente, que seja possível ainda neste mandato autárquico, pôr mãos à obra, pois Válega merece que a sua população encontre trabalho perto do local de residência.
É manifestamente urgente e necessário também que, em colaboração estreita com a Câmara Municipal de Ovar, se exija às diversas operadoras de telecomunicações a implantação, nas zonas da freguesia sem cobertura, ou onde esta se mostre insuficiente, das centrais de distribuição de televisão por cabo, de internet via cabo e/ou hotspots e de internet Wi-Fi.
A situação de degradação do pavilhão gimnodesportivo de Válega, e a necessidade da sua reabilitação, é um problema que a todos afeta, por isso, espero que continue a existir por parte da Camara Municipal de Ovar a abertura e disponibilidade para solucionar com urgência este problema.
Em relação ao centro de Válega, estou esperançado, que se consiga resolver durante o presente mandato, a questão da Quinta do Cruzeiro, de forma a que, promovendo a alteração do PDM neste espaço, se possa dinamizar toda a área envolvente ao centro da vila. Haja vontade política.
É longa a lista, pois são grandes as carências, mas também, convenhamos, é enorme o potencial!

J. A. – Que perspetivas tem para o futuro da freguesia?
P.J.- Auguro um grande futuro para a nossa freguesia pois somos uma terra de gente séria, laboriosa, dinâmica e empreendedora.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J.- Esqueçamos aquilo que nos separa, porque é muito mais aquilo que nos une. Temos que ser capazes de usar todas as nossas capacidades e até influências para bem de Válega, sem esperarmos outra recompensa que não seja apenas a satisfação pessoal e desinteressada de ter conseguido contribuir para o bem comum. Válega é dos fregueses. Válega é dos cidadãos. Válega é do Povo. Válega tem futuro, daí que ninguém tenha receio de viver e investir na freguesia.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J.- A situação da freguesia em termos financeiros é sólida e estável fruto da transparência e do rigor na gestão do erário e da coisa pública.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J.- A Junta de Freguesia recebe apoio da Câmara Municipal de Ovar através da celebração do Acordo de Delegação de Competências que estipula a afetação de recursos humanos (cinco trabalhadores) e da verba de 134.298, 19 euros a ser transferida anualmente.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.- Da minha parte, fica a certeza, inequívoca, de que continuarei a trabalhar, afincadamente, para aumentar a qualidade de vida dos meus conterrâneos, com o propósito de construir  uma freguesia mais próspera e, acima de tudo, mais unida e solidária – como tem sido meu apanágio – com determinação e inabalável otimismo. 

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.- A freguesia de Válega tem uma população muito atenta e exigente e eu cá estou para “dar o corpo às balas”. Dou prioridade ao que é prioritário, tendo um elevado sentido de responsabilidade e um grande espírito de missão. Cumpro o meu dever, à custa de muito trabalho e sacrifício pessoal. É um privilégio ter sido eleito, por três mandatos consecutivos, para desempenhar tão nobre tarefa como presidente da Junta de Freguesia de Válega. Gosto de fazer o bem, de ajudar as pessoas, isso dá-me força. Isso e o apoio da família, "até sinto uma coisa esquisita no corpo quando falo nisso, quando os meus filhos me dizem que têm muito orgulho no pai que têm...". Tenho 76 anos de idade e sou um homem muito feliz…

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.- Que continue a divulgar e a valorizar o trabalho realizado pelas autarquias locais porque o poder local é e continuará a ser o poder mais próximo do cidadão.

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