JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Junho 2019 - Nº 140 - I Série - Algarve

Algarve

José Gonçalo Nobre Duarte da Silva

Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Monchique

José Gonçalo Nobre Duarte da Silva

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J.- Entre os setores da economia desta freguesia o setor primário é talvez o mais importante. Para mais, a agricultura ainda tem um grande peso, mesmo que seja de subsistência assim como a silvicultura. Isto leva à produção de produtos que têm muita divulgação e aceitação mesmo fora dos limites da freguesia e do concelho, como o medronho, por exemplo. Dele surge a aguardente, as compotas e doces, outras bebidas associadas e uma boa dinâmica social.
Quanto ao turismo, cada vez mais a nossa serra é procurada pela sua beleza natural, pela alternativa que constitui, pelas potencialidades que tem na área do lazer.

J. A. – O aumento do desemprego gerou muita pobreza, como está essa freguesia a gerir esse problema?
P.J.- A nossa freguesia não tem problemas muito graves de desemprego mas é maioritariamente composta por pessoas com uma média etária elevada e cuja qualificação académica não é muito grande. Se associarmos a estes dados o incêndio catastrófico do verão passado, temos algum desequilíbrio económico e social, até ao nível emocional. No entanto, pobreza digna dessa designação, felizmente não há muita e há alguma resposta assistencial.

J. A. – O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente no nosso país e qual a causa e efeito?
P.J.- É uma situação grave, que nos envergonha a todos. Não sabemos diagnosticar as causas e os efeitos e menos ainda apontar soluções, que são certamente complexas. No entanto, nas nossas atividades e modo de governação tudo tentaremos transmitir para que esses problemas se resolvam e deixem de ser motivo de tanta preocupação.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento um infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.J.- Em Monchique, a população jovem é, infelizmente, pouco numerosa. As características das nossas gentes é normalmente de alguma pacatez. O ambiente escolar, tanto quanto nos apercebemos, não é mau e há um esforço grande na formação cívica e de cidadania por parte do Agrupamento de Escolas. A Freguesia tem uma Ludoteca frequentada no horário pós escolar por cerca de 200 sócios com idades entre os 4 anos e os 16 anos onde também há um esforço para proporcionar um desenvolvimento harmonioso e integrado. Daí que a delinquência infantil é mais residual mas, no entanto, é sempre motivo de preocupação e é necessária atenção permanente a estes fenómenos.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.- É muito lamentável, toda e qualquer forma de violência. Desejamos que a sociedade evolua no sentido da sã convivência e que não hajam sobressaltos na sua convivialidade.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J.- É um facto indesmentível que a população está a ficar cada vez mais envelhecida. Os recursos económicos também não são nada famosos mas em Monchique há uma razoável resposta social, proporcionada por outras entidades mais vocacionadas e com orçamento mais dirigido para essa área.
Esta Freguesia e a sua Junta desde há vários anos que proporciona a ocupação de alguns tempos de lazer com actividades relacionadas com costuras, com bordados, oferece a possibilidade de idas à praia durante uma semana a cerca de 100 fregueses, alguns passeios, festas e animações diversas ao longo do ano…

J.A.- Com a aproximação do tempo quente, Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transactos?
P.J.- Penso que a questão se relaciona com os incêndios. Nesta Freguesia assim como na vizinha Freguesia de Alferce foi apresentada uma candidatura ao PDR2020, no âmbito da estabilização de taludes, limpeza junto a vias de comunicação, etc, que foi aprovada mas que ficou deserta no concurso. As tabelas das verbas para os diversos actos envolvidos talvez não fossem atractivos e compensadores. O Município também apresentou uma candidatura ao mesmo programa, para as linhas de água e ainda estamos a aguardar algum reforço orçamental ou ajuste para aplicar desenvolvimento no terreno. No entanto, dado o tempo que já passou, vem a necessidade de limpezas junto às habitações, estradas, etc, mas cuja competência é dos proprietários ou cabe ao Município. A Freguesia tem tido um papel colaborante com o Gabinete Técnico Florestal municipal, forças de segurança e outras entidades, especialmente em acções de sensibilização e esclarecimento da população.

J.A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo?
P.J.- A Freguesia em concreto não tem competências diretas nessas áreas a não ser as que lhe estão cometidas especialmente como a colaboração, o apoio de retaguarda, a identificação de situações problemáticas e em risco, a disponibilidade de equipamentos, espaços, pessoal entre outras para momentos mais calamitosos. O território de atuação coincide com a sede do município, onde se localizam as infraestruturas mais importantes para as respostas às emergências.
Os apoios recebidos são os que a lei impõe e nada mais, dependendo a aplicação dos recursos das necessidades reais que a avaliação contínua demonstra.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.- O envelhecimento da população e a consequente diminuição de habitantes.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.- Melhorias na rede viária, especialmente nos acessos aos concelhos vizinhos, que seja efectuada uma revisão do PDM bem ponderada e em sintonia com os tempos actuais, com vista a uma preservação dos nossos melhores trunfos como a paisagem, a água, a riqueza biológica que ainda possuímos, um bom apoio à renovação urbana e à não obstrução da humanização do espaço rural, o aparecimento real de infraestruturas que ajudem a dinamizar a cultura local e a fomentar riqueza a partir de pressupostos de sustentabilidade. Podemos dar como exemplos a falta de um espaço multiusos mas também a dinamização de feiras, festivais, intercâmbios, etc, que interajam efectivamente com a comunidade local.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
P.J.- Se as novas competências que se estão a desenhar para as freguesias forem bem suportadas financeira e materialmente e se houver uma boa relação institucional entre todas as entidades que têm responsabilidades, será certamente um futuro interessante e onde será bom viver.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J.- Monchique tem características únicas no contexto regional onde se insere. Investir nos recursos naturais, com vista ao desenvolvimento, que seja inteligente, sustentável, valorizando o património natural mas também o cultural e acima de tudo as pessoas, vale a pena e será muito vantajoso investir aqui.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J.- Tem havido uma preocupação de gerir a Freguesia com os recursos que tem. Consegue-se fazer bastantes actividades, e dinamizar alguns espaços e uma ludoteca que é uma belíssima estrutura de apoio à comunidade, de forma que não temos passivo algum, neste momento.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
P.J.- O apoio não é necessariamente todo igual, dependendo das negociações entre as autarquias. Nesta altura, esta Freguesia tem tido algum apoio logístico, com cedência de espaços para atividades, transportes e informação técnica. Não tem havido delegações de competências mas há um bom relacionamento institucional e está a iniciar-se um período de maior solicitação de apoio.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.- A população que por cá vive sabe como é bom viver em Monchique. Podemos ser deficitários nalguns aspectos mas contamos que brevemente as coisas comecem a melhorar. Nós estamos empenhados em valorizar a nossa atitude de gente que resiste e não desiste. Temos que todos juntos pressionar quem de direito para reparar que existimos e queremos uma vila moderna, bem apetrechada, um espaço rural que seja uma fonte de riqueza para todos, aldeias dinâmicas, e os nossos valores inquestionáveis sejam conhecidos e divulgados e que tudo isso se torne em bem estar.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.- À custa de sacrifícios. Nestas coisas é sempre difícil que os mais próximos não sejam quase sempre os mais sacrificados. No entanto, tento manter a maior proximidade possível com a família.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.- Que continue este projecto e que se tiver que decidir entre dois trabalhos escolha o que valorize os mais pequenos, afastados, desvalorizados.
Raras vezes os órgãos autárquicos que representam autarquias de menor dimensão, quer populacional, geográfica ou outra, têm oportunidade de fazer ouvir a sua voz.
Afinal de contas, fazem parte do mesmo princípio de coesão nacional, seguem as mesmas regras e sentem-se como partes absolutamente integrantes e próximas dos que representam, muitas vezes com uma carga maior ainda de preocupações e dificuldades.

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