JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Julho 2019 - Nº 141 - I Série - Alentejo

Alentejo

Entrevista do Presidente da Junta de Freguesia de Montargil

Joaquim Manuel de Oliveira Dias

J.A. – Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
J.F. - O setor primário foi, até a alguns anos atrás, o sector mais importante da economia montargilense. Aos poucos foi perdendo a sua importância e, neste momento, havendo só alguns sete ou oito agricultores, que se podem considerar como tal, com uma agricultura mecanizada, tem pouca relevância para a freguesia, até pelo número de pessoas que emprega.
O turismo apresenta-se como a grande aposta futura desta região, devido às extraordinárias condições naturais existentes: beleza ímpar da albufeira, perfeita para a prática de desportos náuticos; paisagens maravilhosas da zona da serra, com trilhos devidamente identificados, para quem queira conhecer os recantos paradisíacos desta freguesia; hotelaria de excelência, parque de campismo e várias unidades de turismo rural.
De ano para ano é visível o aumento do número de visitantes. Na chamada época alta já não há oferta para tanta procura. Para corresponder a esta nova exigência e, ao mesmo tempo, aproveitar esta oportunidade de negócio, estão já em fase de conclusão mais duas unidades hoteleiras.

J. A. – O aumento do desemprego gerou muita pobreza, como está essa freguesia a gerir esse problema?
J.F. - Na minha opinião o desemprego não gerou muita pobreza nesta freguesia.
A grande maioria das pessoas que viviam da agricultura têm agora mais de sessenta e cinco anos. Quer dizer que na altura mais problemática, a nível de emprego, umas entraram na idade da reforma e outras aproveitaram os três anos que tinham direito de fundo de desemprego e depois a pré-reforma.
Aquelas de meia-idade já tinha procurado emprego fora da localidade e os jovens seguiram-lhes os passos.
Não foram detetados casos de pobreza.
A Junta de Freguesia, em colaboração com o Município de Ponte de Sor, tem criado condições para a geração de emprego na freguesia e no concelho. Exemplo disso é o caso do Aeródromo de Ponte de Sor com a fixação de várias empresas, e onde já estão muitos jovens da freguesia a trabalhar. A criação de emprego em Montargil passa pela aposta no turismo. É esta indústria que já começa a fixar jovens locais e que já trouxe pessoas de fora a residirem nesta vila.

J. A. – O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente no nosso país e qual a causa e efeito?
J. F - A violência doméstica é fruto da nossa sociedade atual, que há já algum tempo perdeu os valores que vigoravam no passado. São exemplos desta situação, o conceito de família, a educação e o respeito pelo próximo.
Se as pessoas não tiverem uma educação, onde desde muito cedo se comece a implementar estes valores, não se pode esperar que estas estejam preparadas para assumirem o compromisso sério que é o casamento, e tudo o que esta união tem subjacente, como o respeito, a partilha, a amizade, a solidariedade, etc…
O trajeto que esta sociedade está a seguir, com a perda destes valores fundamentais, leva-nos a estas situações de desentendimento, de falta de respeito, de subjugação, que incentiva as pessoas a partirem para a violência. Infelizmente estes casos estão a acontecer cada vez com mais frequência. Urge tomar providências com a máxima celeridade, para que esta sociedade não perca a pouca dignidade que ainda lhe resta nesta matéria.

J. A. – A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar é neste momento uma infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
J. F. - As principais causas da delinquência infantil são o sistema educativo que vigora nos dias de hoje e a atual legislação, que, em meu entender, protege em demasia os jovens. O que era de mais no passado passou a ser de menos no presente.
Os jovens têm uma psicologia muito forte. Ao aperceberem-se desta super proteção, principalmente aqueles que não têm muito acompanhamento em casa, exploram esta situação, chegando a fazerem chantagem com os pais, encarregados de educação e professores.
Em minha opinião, este é um assunto muito sério, sobre o qual os nossos governantes se deveriam preocupar. Começarem por alterar a legislação e sensibilizarem os pais para uma correta e dedicada educação, pois esta tem de começar em casa.

J. A. – O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
J. F. – A violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade é mais uma das consequências da sociedade atual que tem vindo a perder os seus valores.
Eu considero-me um defensor dos ideais da revolução do 25 de abril, como a democracia, a liberdade, a igualdade, a fraternidade, etc… no entanto, tenho de
chegar à triste conclusão de que não estamos preparados para viver em liberdade. Não nos podemos esquecer que todos temos direito a ela, mas que esta termina onde a dos outros começa. Este é um princípio fundamental em democracia.
A liberdade que adquirimos não foi para isto. Temos liberdade de expressão, temos um país mais justo, onde há mais igualdade, pelo menos em teoria, e não temos a liberdade de andar tranquilos porque pode aparecer alguém que nos faça mal ou à nossa família.
Mais uma vez digo que a nossa legislação tem de ser revista, nem que tenhamos de abdicar de alguma liberdade para termos mais segurança.

J. A. – Estando a população cada vez mais envelhecida e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
J. F. - Esta autarquia presta diversos tipos de apoio à população mais envelhecida e/ou mais necessitada.
Começando pelo transporte, todas as semanas esta junta transporta os idosos e as pessoas com menos recursos, das três aldeias da freguesia para a vila de Montargil, para que estas possam ir ao Centro de Saúde, ao Correio, às compras, etc..
Transporta, de Montargil para Ponte de Sor, as pessoas que necessitam de ir à hidroginástica e que têm menos recursos.
Distribui cabazes de Natal pelas pessoas mais carenciadas, na proximidade desta quadra festiva e, pontualmente, presta ajuda alimentar a casos extremos, e/ou faz reencaminhamento dos mesmos para entidades competentes, como a Cruz Vermelha e Segurança Social.
A Santa Casa da Misericórdia de Montargil também colabora nesta ajuda à população mais idosa, através das valências que tem em atividade, como o Lar, o Centro de Dia e o Apoio Domiciliário. Sendo este último de grande importância no que diz respeito ao apoio que dedica à população mais envelhecida, que vive mais longe da sede de freguesia e com menos apoio familiar.

J. A.- Com a aproximação do tempo quente, Verão, que tipo de prevenção utilizada para minimizar danos como os que aconteceram em anos transactos?
J. F. – Com o apoio do Município de Ponte de Sor e do seu departamento florestal foram efetuadas ações de sensibilização, aqui na freguesia, chamando a atenção da população para a limpeza dos terrenos e para os cuidados que devem ter quando fizerem queimas e queimadas.
Foram também informados da existência de uma plataforma informática, na qual tinham que fazer os registos das queimas e queimadas e a obtenção da autorização ou da não autorização, para efetuarem as mesmas. No caso de não conseguirem ou de não terem possibilidades de o fazerem em casa, a Junta de Freguesia está à disposição para fazê-lo.
Foram afixados diversos cartazes na sede da junta e em lugares públicos, no seguimento dessas ações de sensibilização.
Houve formação, a nível concelhio, sobre Kit`s de Incêndio, na qual estiveram presentes dois funcionários da junta. Temos o nosso, permanentemente cheio de água, pronto para intervir, sempre que for necessário.

J. A.- Que apoios têm recebido do governo para colmatar esse flagelo?
J. F. – Os apoios não são dados diretamente às freguesias, são mais a nível dos Municípios.
De qualquer modo, existe apoio direto no que diz respeito ao envio de avisos, sugestões e informações sobre os normativos, os procedimentos a adotar e os cuidados a ter com a limpeza dos terrenos, com as queimas e com as queimadas.
Além disso temos a colaboração do GIPS, que atuando no terreno, vai dando algumas sugestões e recomendações. Há ajuda mútua na identificação dos casos que requerem a sua atuação.

J. A. – Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
J. F. - O maior problema com que esta freguesia se debate continua a ser o da criação de emprego para a fixação dos jovens.
A população montargilense está envelhecida, problema que é transversal às zonas do interior, devido à deslocação dos mais jovens para os grandes centros, onde há mais e melhor oferta de emprego.
Apesar do desemprego no concelho de Ponte de Sor andar em contraciclo há já alguns anos, mesmo quando o desemprego aumentava a nível nacional, no concelho diminuía. Isto graças às empresas que se instalaram no Aeródromo e na zona industrial, as quais trouxeram a criação de postos de trabalho, empregando população de todo o concelho.
Como já disse anteriormente, a principal aposta futura passa pela indústria do turismo, pelos motivos também já identificados, para a criação de postos de trabalho e consequentemente para a fixação dos jovens nesta localidade.

J. A. – Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
J. F. – Numa freguesia que aposta no turismo e que nos últimos anos até tem feito muito para o desenvolvimento desta indústria, com a colaboração do Município, com obras muito importantes e de grande monta, como são a Zona Desportiva, a Zona Verde do Laranjal, o Centro Cultural e o Miradouro, não pode descorar as coisas mais básicas mas, ao mesmo tempo muito importantes, para os naturais e para quem nos visita.
Logo no início do mandato, uma da situações que eu e o meu executivo identificámos foi a falta de água que se fazia sentir nesta vila durante o verão. Graças à boa compreensão do executivo municipal, com a abertura de mais um furo e a substituição de alguma canalização mais antiga, o problema ficou resolvido.
Existem outras situações, como é o problema da limpeza, tanto na sede como nas três aldeias da freguesia, em que esta ainda não é a ideal.
Há falta de colaboradores e de maquinaria. Estamos a tentar resolver esta situação. A solução passa pela aquisição de um carro para varrer as ruas, que é muito mais rápido que um aspirador manual, e pela admissão de mais uma pessoa, situação que só poderá ser viável quando esta junta deixar de pagar a renda das antigas instalações da sua sede.

J. A. – Que perspectivas tem para o futuro da freguesia?
J. F. – As perspetivas são boas. Se continuarmos em sintonia com o município, em relação aos projetos que temos para a freguesia de Montargil, como tem acontecido ao longo deste ano e meio de mandato, com uma aposta forte no turismo, e muito virada para a albufeira e outras potencialidades naturais existentes, penso que estamos em condições de fazermos de Montargil uma terra próspera, com oferta de emprego, com qualidade de vida e para nos afirmarmos como uma freguesia onde vale a pena viver, visitar e investir.
A minha maior promessa eleitoral foi a construção de uma praia fluvial, logo secundada por um parque de merendas, também na zona da barragem.
Estes projetos já foram incluídos nas alterações que se efetuaram ao antigo PDM, e vão mesmo ser uma realidade.
Queremos escrever o nome de Montargil nos roteiros turísticos e ser uma das escolhas preferenciais.

J. A. – Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
J. F. – A mensagem que levo é de esperança. Lembrar o que já foi feito nos últimos anos, falar no que estamos a fazer, nos projetos que temos para o futuro e o que queremos para Montargil.
Estamos a criar condições para que Montargil seja uma terra próspera, com qualidade de vida e para que esta freguesia seja um local onde as pessoas sintam que vale a pena viver, visitar e investir, como já tinha afirmado anteriormente.
Pelos investimentos que já foram efetuados, pela procura crescente que se verifica de ano para ano, esta localidade começa a ser um destino privilegiado pelos turistas nacionais e, também, já se faz sentir a presença de turistas internacionais. Começa a haver necessidade de mais investimento, para fazer face a este aumento da procura.
Antevê-se assim, uma boa oportunidade de negócio, principalmente, no investimento em mais unidades hoteleiras, em restauração e em empresas de lazer e entretenimento.
Empresas - Lazer, cultura e entretenimento.

J. A. – Como é a situação financeira dessa freguesia?
J. F - A situação financeira desta freguesia é boa. Não tem dividas e não recorreu ao crédito.
Fruto de uma gestão rigorosa e de um grande controlo orçamental, vamos cumprindo com as nossas responsabilidades, sem nunca embarcarmos em loucuras.
É claro que gostaríamos que o nosso orçamento fosse mais elevado. Que o orçamento do estado comtemplasse as juntas de freguesia com verbas superiores às atuais. Só assim as juntas conseguiriam fazer mais obras e ser mais independentes. No atual cenário fazemos projetos, mas temos sempre que pedir apoio aos municípios para os concretizar.
Vamos ver se vamos ficar melhor ou pior com as novas delegações de competências que ai vêm.

J. A. – Qual o apoio que a Câmara presta às Juntas de Freguesia?
J. F. - A Câmara presta vários tipos de apoio às juntas do concelho:
Apoio financeiro, no âmbito das delegações de competências que já existiam antes do decreto-lei nº 57/2019, nos projetos que a junta lhe apresenta e nas grandes obras que foram efetuadas na vila, algumas das quais já foram referidas anteriormente;
Apoio logístico, nas festas e restantes eventos que se vão realizando;
Apoio jurídico, fornecendo pareceres muito úteis para resolução de problemas que vão surgindo;
Disponibiliza, também, apoio técnico, nas mais diversas áreas de atuação.

J. A. – Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
J. F. - A mensagem que quero deixar à população da minha freguesia é uma mensagem do querer e do acreditar. Montargil tem evoluído muito nos últimos anos a todos os níveis. Basta constatar as grandes obras que foram concretizadas, os melhoramentos que já foram efetuados a nível de estradas, de jardins e espaços verdes, na rede pública de abastecimento de águas, no investimento que foi feito na cultura e no desporto.
Acreditem nos projetos que o município e a junta têm para a freguesia, como é o caso da praia fluvial, nas duas novas unidades hoteleiras, em fase de acabamento, e na vontade que algumas empresas já demonstraram em investir na freguesia, em desportos náuticos, lazer e entretenimento.

J. A. – Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
J. F. - Nem sempre é fácil conciliar as duas coisas. Muitas vezes a vida familiar é relegada para segundo plano, face à urgência imperativa de algumas situações.
Muitas vezes estamos no seio da família ou numa reunião com amigos e temos de interromper para resolver assuntos que carecem de alguma celeridade. Estes cargos exigem que estejamos sempre perto da população, disponíveis vinte e quatro horas por dia. Mas, felizmente, nem todos os dias são iguais, se tudo for bem programado ainda sobra algum tempo para a nossa vida particular.

J. A. – Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
J. F. – É com agrado que vejo a existência de um Jornal das Autarquias e dos fins a que o mesmo se destina.
Continuem o vosso trabalho, na promoção e difusão do Poder Local Democrático, na divulgação que fazem das autarquias, para que o público em geral passe a conhecê-las melhor, darem a possibilidade aos autarcas de exporem os seus projetos, de enunciarem os seus anseios, as suas expetativas, as suas sugestões e também os seus constrangimentos.

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